(texto datado de 22 Maio de 2011. Profético e apropriado.)
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A Viagem Ela fingiu estar ainda a dormir, enquanto ele deambulava devagar e em silêncio pelo quarto, recolhendo as coisas. Susteve a respiração, deixou-se estar quieta sabendo que estava à beira das lágrimas.
Ele estava de partida, viagem de trabalho, segundo o eufemismo. Ela sabia que ele não regressaria. Daí a um mês estaria a recolher o que ele deixasse em casa, para pôr numa caixa de cartão que ele apanharia num dia em que ela não estivesse em casa. Sabia-o.
O amor que lhe tinha não fora suficiente para aguentar tantos danos no casco. A distância física era mínima no dia-a-dia mas tremenda na ligação que haviam desenhado. Não falavam, ela isolava-se na sua solidão, ele estava presente sempre com a mente a vaguear por uma vida mais aventureira, bem disposta, que aproveitasse a época dos 30 que havia de findar.
Ele sentou-se ao lado dela e observou-a a dormir. O cab…