Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Do reset

Deitei fora cartas, bilhetes de concertos, mapas de viagens, postais. 
Rasguei fotografias. Ofereci roupa. Mudei o perfume. Queimei lençóis e substitui por novos. 
Comprei outros livros e arrumei os antigos no sótão. Eliminei playlists. Cortei o cabelo e pintei-o de louro. 
Fiz reset. Rápido. Indolor. Incisivo. Destruí as memórias como se estás não tivessem peso. Ou densidade. Como se não houvesse dor dentro de mim, que nunca consegui expulsar. Que não permiti sentir. 
Recomeçar e seguir em diante. Como se o momento tivesse sido breve, como um instante que não aconteceu. E o teu rosto perdeu visibilidade. Como se não me lembrasse que existimos.

Bastamos nós

Por mais matéria que tenhamos em nós, os abalos sentem-se. A energia que nos carrega suporta todas as vagas por mais profundos que sejam os rasgões. 

Existe uma força interior que nos protege da desventura com graciosidade, por mais inesperada e tortuosa seja a descrença. 

Somos invisíveis, perenes, tão-somente simbólicos para os demais, mas a massa que nos sustenta é tão unica que por nós, para nós, a bem de nós, bastamos nós.

Do poder

Ela não busca afectos -efémeros e que podem ser falsificados-, queria poder - controlo sobre o ritmo, a vontade, sobre tudo.

Das partidas

Ela chegava e nunca desfazia malas. Partia de súbito, sem aviso.  Mas ele não lhe conseguia trancar a porta. Nenhum deles conseguia.

Do não ficar

Ela não se demorava onde não era desejada, nem esperava que soassem os alarmes.  Simplesmente, partia.  Sem olhar para trás. Mantinha-se inabalável. Indomável pelas circunstâncias. Incapaz de lidar com metades ou meias palavras.  E sem o movimento lento e banal das despedidas.

Derradeiro

Em ti, por ti, sem ti. Voltava atras no tempo só para te sentir uma última, única, derradeira vez da forma lenta, solta, sem sinais de Stop, a vaguear pelas curvas que estremecem. 
Em ti, a desprender todos mais recônditos desejos. 
Por ti, repousar exausta e deixar-te dormir horas infindáveis em conforto, nos meus braços. 
Sem ti, esperar que regresses e confortar-me no teu cheiro e nos flashes do teu toque em mim.

Dos vicios

Ela iluminava o mundo só depois do café. 

Só ativava terramotos já de cigarro na mão. A partir daí ninguém estava seguro. Gerar desconforto era o seu truque.