Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Da avidez

Desaperta-me a loucura como se bastara puxar um laço de seda. Desfaz a luxuria com um olhar negro e irónico que carrega poesia que me baila na cabeça sempre que imagino o teu rosto.
Embala-me a solidão, entende-a, aceita-a, sossega-a sem esperar que ela cesse mas amaina-a com o silêncio das tuas impressões digitais na minha pele. A arder. 
Entrega-te sem reservas, sem pudores, com toda a imaginação em rédea solta. Uma página em branco na qual podes misturar palavras, verbos, construir acções, desenhar-me o desejo enrouquecido. 
Ninguém é sinónimo de ninguém. Descobre-me com avidez, com vontade, com curiosidade, sem guião, com a bússola das oportunidades. Arrisca-me. Tira-me os medos. Faz-me acreditar.

Da maldição

Acordaste de modo pacifico enquanto o Sol se aventurava pelas frestas da janela mal fechada, soltaste um braço da lisura do lençol de linho e esfregaste, ao de leve, os olhos tentando trazer à tona as recordações mais recentes do que foi feito antes de teres despertado. O vazio bailava no quente dos teus olhos negros... não te lembravas de nada, estavas perdido como era teu costume pelo amanhecer. Bocejaste baixinho e aninhaste-te mais um pouco.

Observei os teus movimentos pela nesga de espelho que conseguia vislumbrar da cómoda e deixei-me estar quieta, com medo que desses por mim, que te espantasse. Quase não respirava só para que a minha presença não fosse descoberta, estando ali mesmo ao teu lado, colada a ti pela imobilidade dos dois corpos, no silêncio do quarto interrompido pelo temor acelerado do meu ritmo cardíaco.
“Bom-dia”, disseste em tom calmo adivinhando os meus receios. Suspirei, mas custou devolver-te a resposta. Que tonta, é fácil de dizê-lo agora, mas naqueles segundos…

Do que foste

Passam os dias como passada de maratonista, num ápice, sem dar para respirar. E, no entanto, é longa a espera, torturada, a noite sucede-se a galope da rotina e tu não voltas, de ti apenas uma sombra ténue. Já não distingo o teu cheiro, da pouca esperança que em alguma hora pode existir nada resta. 
Não te imagino para lá de sombras esfumadas e de um toque subtil que me arrepiava. Pouco que havia, que sabia ser tão menos que nada, mas valorizava como se muito fora, esgotou-se. Tal como a minha mente que em febril desassossego tenta desprender-te sem clemência por mais aguçada que seja a dor. 


E foste. Foste basilar na minha existência. Foste uma fotografia que envelheceu escondida numa caixa amarga. Foste uma outra vida. Foste sem nunca teres estado.

Dos talvez

Talvez seja um doce e longo desencontro. Pessoas que colidem em diferentes momentos quando há um lapso de tempo de oportunidade, mas são arrastados para fora de rota. 
Nesses intervalos a química toca-se, o círculo de afinidades alarga-se, a cumplicidade ganha raízes. Há uma sensação ténue de pertença que não passa de uma afiada ilusão. 
Por cada acaso há uma descoberta, algo que enriquece e dá substância a este suave fado de pessoas que não estão destinadas. Talvez por cada disrupção do universo que gera renovada batida acelerada do coração, seja mais claro que será sempre uma sucessão de episódios únicos, fortes, derrubadores, que se esgotam e de novo a torrente nos leva para longe. 
Talvez seja violento mas perene. 
Talvez seja o que faz sentido mas o que o calendário de circunstâncias veda. 
Talvez seja o sim que sucumbe perante o óbvio não. 
Talvez, afortunados os que o vivam.

Do que não existiu

De um momento que nem se perdeu nem se ganhou.  Nem sequer existiu.

Dos postais

"Conta-me algo novo, que te revele..."

-"Gosto de postais. De ser recordada por alguém quando está longe e se lembra de que eu gostaria muito de estar ali, ou ia odiar, mas venho à memória. Gosto de os escrever, deixar um pouco dos lugares àqueles que me fazem sentir que pertenço a algum sitio."

-"Escreves-me um postal?"

-"Em ti, só se te escrevesse no corpo que encontrei um local onde me sinto em casa."

Aeroporto Humberto Delgado, 18/5/2016, 6:05m.

Do gostar fora de tempo

"Gosto de ti", disse-lhe ele em murmurio quando ela adormeceu no sofá, depois de mais uma longa noite de conversas e desabafos. 
Tapou-a com uma manta como se fosse o seu corpo a protegê-la de todos os invernos árduas que a fustigavam.
 "Gosto de ti", repetiu enquanto acendia um cigarro, se sentava e optava por deixar a musica seguir o seu curso, em tom baixo, meigo, quase triste. 
Ficou a vê-la respirar devagar e pensou nos anos que levava naquela suave contemplação, sabê-la perto ou mais distante, nos braços de outros, sem que nada abalasse aquela sua vontade de a tomar para si, sentir o cheiro do cabelo e suavizar-lhe os gestos tão controlados, tão desapegados e distantes das emoções. Aprendera a amar outras, a receber delas longo carinho, a sentir-se em paz. 
Mas havia sempre aquela imagem que não o deixava sossegar daqueles olhos negros, expressivos, do cigarro a brincar na ponta dos dedos nervosos, do sorriso contido ainda que mordaz.
 "Gosto de ti", adm…