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Visita guiada a ti

Quando ris o mundo pára. O meu mundo. O único que conheço. No qual me sentia segura. Agora duvido. Fraquejo. Hesito. Mas sigo em frente porque algures estás tu e porque não posso ficar aqui parada quando te possa encontrar.
Quando ris, iluminas a sala por muita escura esteja a noite. Por muito frio que seja o vazio que nela reina, rapidamente colorido com a expressão que de ti sai com a força destruidora do teu sorriso.
Quando ris, apetece-me reter-te assim. Colar-me a ti e partilhar essa tua alegria. Deixar que a tua música me console o silêncio de outros momentos, deixar-me inspirar pela forma como seduzes o som que enche o pouco espaço livre que há entre nós.
Quando me tocas, a lua baila lá em cima tão perto de nós, revelando o meu rosto perdido em ti, rosto descoberto pelo cabelo que afastas de modo decidido. E eu sinto que esse toque me anestesia o corpo que fica preso àquele segundo em que renovamos o olhar. 
Quando me abraças, o teu calor contagia-me a vontade e eu quero sempre mai…

Dos vincos na coragem

Em cada fuga para a frente, uma emoção ceifada. Até não haver espigas que soçobrem ao sabor do vento. 
Em cada recomeçar mais certezas frias. Convicções quase espirituais de um distanciamento que aderiu à derme com naturalidade. 
Em cada centelha de possibilidade perdida, mais uma pedra na muralha que se agiganta. Mais uma volta no carrocel de todas as histórias que foram assim. Em cada silêncio pesado como chicotada propositada, mais um vinco na coragem de marcar presença. 
Em cada prova de que não estamos à altura, não merecemos, mais curtida fica a pele imune às frases batidas. Mais nos centramos em nós e desistimos de tingir com estrelas o céu de outrem. 
Em cada queda na arena, mais profundo é o corte da realidade que nos esmaga a voz. Pois actuamos a solo.

Do gostar de ti

Gosto de ti porque o teu sorriso me apazigua naturalmente. 
Gosto de ti porque esses olhos intensos me encantam à medida que falas. 
Gosto de ti porque não há ansiedade quando me envolves com a tua curiosidade. 
Gosto de ti porque estar contigo significa não palpitar como se vivesse no arame. 
Gosto de ti porque é simples, porque desliza em mim uma suavidade que mais não encontro. 
Gosto de ti porque sou mar agitado que contigo não é intempestivo. 
Gosto de ti porque me fazes rir com inteligência, com espontaneidade e no mesmo diapasão. 
Gosto de ti porque os teus abraços são o melhor e mais confortante dos silêncios. 
Gosto de ti porque estar sem ti amachuca-me os sentidos. 
Gosto de ti porque basta isso. É tão-somente genuíno, forte, disruptivo, sereno, vintage. 
Gosto de ti pelas razões certas mas na melodia errada. 
Gosto de ti porque é tão meu este estado de alma sem eco.

Da pele martirizada

E depois, como ficamos? Sem espaço para reconstrução, demolidos pelo peso do vazio? 
Incapazes de nos dar mais uma oportunidade de fazer entrar para o corredor das nossas venturas outro abraço quente, outro toque subtil no cabelo? 
Consumidos pelo receio, pela mágoa das histórias que nos vão ficando na pele martirizada como códigos de barras? 
Entregues à suave quietude dos dias, encostados à tranquilidade dos que gostam de nós e nos oferecem guarida incondicional? 
E trocamos a protecção e a zona segura da dor pela adrenalina de correr riscos, de voltar a vibrar, de despirmos os sentidos perante alguém que nos faça sentir vivos. E perde-se a trepidante emoção de viver cada dia no arame mas com desejo por aquelas mãos que nos arrepiam, pelo despique da discussão, pela gloriosa felicidade de partilhar um golo do Benfica.
E depois, é assim que queremos viver?

Das doses de ti

Com o olhar doce com que insistes em pousar esse quente no meu rosto, fazes-me ter vontade de te dar o mundo e as aventuras que o fazem girar, o colorido das manhãs nascidas sobre o mar, o som que sai dos rádios e me aproximam de ti.
Com o gesto meigo com que me puxas para os teus braços, sinto o solavanco emocional de te ter por perto e tremo como insana pelo prazer que me dás ao mexer no meu cabelo, que corre solto na nudez do teu peito, enquanto baixas as mãos pela brancura das minhas costas.
Com o sabor teu que me deixas nos lábios, recordo o vento de arrepiar dolente de outras noites em que histórias ditámos para os lençóis que nos tapavam e nos aproximavam do mesmo sonho, tu guiando o caminho vencido pelo cansaço, eu acompanhando para me manter perto de ti mais tempo.
Com a gargalhada que te caracteriza enches o espaço em que parece que mais ninguém existe, anulados pela força que nos atrai, como se os tivesse apagado para te desfrutar devagar, nos momentos que são parcos pelo tant…

Da ausência

Conceder-te-ia todos desejos, e não meramente três, para sentir o adocicado toque das tuas carícias no meu rosto. 

Faria as marés serem menos agressivas para que chegasses até mim e encostasses os teus lábios aos meus cabelos desalinhados com o resto do mundo. 

Aplacaria o frio cortante das tuas memórias mais sombrias, só para dirimir a distância entre nós.

Confessar-te-ia os meus enredos mais complexos com palavras simples, apenas para esticar as minhas pernas no teu colo e permitir que o repouso nos ditasse o fim de tarde. 

Olhar-te-ia com o mais profundo de mim para que sentisses que há mais aonde pertencer, onde ser feliz, onde perder os sentidos para ganhar devaneio emocional. 

Trazer-te-ia para o meu êxtase se não fora a tua ausência de mim.

Dos murros

É como um murro seco. Um directo com intensidade que violenta a existência. Desferido com a potência do corte mais doloroso, com a rapidez da ausência de emoção. O balouçar da corda que raspa no chão como chicote que flagela a carne mas sem deixar ferida de tão inexorável está já a pele. Viver em esquiva, não em fuga, mas na arte de estar com a guarda alta, capaz de não dar abertura ao adversário, escapar em segundos com reflexos apurados e um ataque feroz às circunstâncias, às possibilidades, aos rotundos "nãos", sem queda no ringue.