Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Das não promessas

Não prometeste nada. Esse é a zona de protecção fácil.
Os teus dedos pousaram no meu pescoço, nunca como uma jura mas sim como uma despedida, em cada caricia, repetida, sempre com intenção. Sempre como negação do que pode vir a seguir. 
Não escapamos mas marcas o compasso com desdém, com ausência sentida, contrariando qualquer afecto como se eu fosse demasiado forte e abrupta no teu mundo de alquimista solitário.

Do desprendimento

"Aproxima-te, és distante, deixa que os meus abraços te toquem para lá do corpo. 
- Isto que sou não é suficiente?
- Não, quero mais de ti. Ver os olhos a brilhar e sorrires, solta. 
- O teu conforto é a minha inquietação. O meu melhor é o desprendimento, não dar nada por adquirido e querer sempre mais. A minha loucura são cheiros, conversas sobre tudo e sobre nada, desejo, musica. Que mais queres? 
- Acalmar-te, dar-te paz.
- Para quê? Para definhar na sombra?"


Da cor dos sonhos

De que cor são os teus sonhos quando estou neles? Será que me vês sequer enquanto dormes? 
Passo-te ligeira e ao de leve pela derme como se fosse uma pena que arrepia mas não se queda com substancia. Não me agarras, apenas sopras ao sabor do vento como se fosse tudo fácil. Tens-me próximo, mas sabes que estou fora do universo que cada um traçou para si. Assim, sim, é fácil.

Não colidimos após cada abraço. Mas também não rimos, com vontade. Não há espaço para toques demorados de comoção, apenas fugas intensas. Inexplicáveis. E sem gargalhadas, que me baralha as emoções. 


Será que me imaginas em cheiro? Quando estás a sonhar acordado?

Do tarde demais

O cigarro estava no fim. Ardia devagar, sem conhecer a pressa do ardor dela. Ele entrou de rompante, sorriu e isso afectou-a. Pô-la de alerta. 
Palavras ecoaram. Ela não as entendeu. Nem sequer as escutou. Divagava perdida na voz dele, no ácido acutilante que ela representava, invadindo-lhe o espírito com lembranças desgastadas, num ritmo pausado mas devastador. 
Anuiu, por fim, maquinalmente. Já não se sentia dona de si mesma, perdia as forças sem, contudo, o revelar; arrastava-se na corrente simulando estar ancorada; tremia, enfim, sem deixar perceber as fendas. Olharam-se, por instantes, olhos nos olhos e o universo girou, paz e guerra colidiram, o tempo parou como se nunca tivesse tido inicio. 
Bailaram a dois, algures uma sinfonia tocava só para eles mas tão baixo que eles não escutaram, não sentiram e debandaram. Ambos queriam fugir dali. Afastarem-se para longe do desconforto que cada um infligia ao outro. 
As mãos trémulas dela davam sinais de insanidade. Ele ansiou por carinhos d…

Da minha janela

Da minha janela vejo o Tejo em esplendor iluminado por uma indolência do aqui e agora que acompanha a minha vontade de estar em ti. 
Com esta vista rasgada sobre a quietude do rio, com o sol a querer rebentar por entre nuvens que me toldam o discernimento, ma aceleram as pulsações, me trazem flashes de uma cena de filme em câmara lenta, inversamente proporcional ao meu desejo. Acelerado. Sem limites. 

O toque, a caída no campo de batalha derrotada pelo que não quero controlar. Loucura e cigarros. Pele contra pele, febril no pico do inverno. Fogo de artifício que se alimenta de cumplicidade. 
Da minha janela vejo a imensidão de azul apaziguador que me rende à entrega. Mesmo na impossibilidade, é neste desencontro que vou bendizendo o rio que me invade de ti.

Dos outros e do genuíno

Somos carinho em pó. Junta-se água, mistura-se e temos uma dose quente de conforto e um abraço próximo. Porém, somos aço. Impenetráveis e encerrados quando nos ferem. A pele, o ego, a confiança.
Pedem-nos autenticidade como paradigma último. Não obstante, mesmo quando julgamos estar na zona de cessar fogo, estamos sob olhar cerrado pela nossa diferença. Pelo que nos apetece. Pelo que pensamos. Pelo modo como nos deslocamos. Diferente. Essa estranha forma de vida. Esse querer de outro modo. Esse desejar mais. Essa fantasia com a luxúria material e dos sentidos.
O hedonismo passou à ilegalidade ou de tão incompreendido apenas deve ser banido pelo desconforto que provoca nos que nos são próximos?Amamos de menos quando tanto mais usamos apenas o corpo. Amamos a mais coisas como se a nossa noção de belo não tenha valor. Nem que seja para nós.
Ser genuíno é como pregão de feirante. Vale o que vale. Não vale a pena ser por inteiro porque vai sempre colidir ou incomodar alguém. O amor próprio e …

Do que nada mudou

E agora? 
Nada muda, na verdade. A terra tremeu apenas por momentos e só nós sentimos. Eu, na pele, saboreada entre alucinação e crueza. Tu, com a intensidade de quem se propõe a ignorar logo de seguida. 
Mas o mundo seguiu no seu curso normal. Nenhuma erupção parou a vida tal como ela é. Não salvámos vidas. Nem as nossas. 
A minha permanece neste exaltado desalinho de tudo ou nada, agora e já ou nunca, nesta impaciência de quem não tem espaço para mais dores nem desejo por desalento. A tua na calma hesitação de quem tem o mundo na ponta dos dedos, como se música fora que saísse do teu recatado turbilhão emocional. 
Não descobrimos novos caminhos. O meu continua em passo acelerado para algures onde finalmente repouse este ardor e explosão de fazer, a pedir de ser domado. O teu queda-se na distante solidão segura, desconcertante, madura. 
Segue tudo como é, como já foi, como será. Impassível. Com o suave sabor de um acaso