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Da dor indizivel

Somos profetas da dor indizível. Receamos que se a desenharmos com contornos ela ganhe vincos abrasivos de giz a raspar na ardósia. Cortará ainda mais o que já de si nos foi sulcando a pele curtida pela imprevisibilidade, pelo cansaço, pela temperança que não desejamos. 

Somos escrivas de olhares que pedem muito em troco do mesmo nada, encostados a doses finitas de emoção e sorrisos que apenas se abrem.
Grassa em nós a exaustão onde pulsa a vontade, o desalinho, a ausência de um sol apaziguador de quem anda em tempos desencontrados.

Da chama rápida

Somos tão breves. Leves. Apenas momentos. Insistimos em transportar peso. Tensão. Desnecessário. 
Não controlamos, de facto, tudo. Ou alguma coisa. Há sempre algo que queremos que não vamos ter. Por muito que o desejemos, que o desenhemos na nossa mente como uma ilustração com cheiro, com sons roucos, com suor, com arrepios de prazer. A realidade, por si, e para nos relativizar, é feita de uma malha tecida com anos, com entregas, com construção cuidada, com os desígnios do que é uma edificação, as aspirações do que é a história de alguém. 
E somos um flash. Uma carruagem de metro em alta velocidade que se acerca da plataforma, abre as portas para toda uma nova viagem, e a aventura que queremos não começa ali. O metro segue. Fomos apenas uma paragem no terminal, não houve quem entrasse.
Vale a pena esperar por mais? Complicar? Sentir?
Somos instantes. Para quê a fogosidade, se no segundo seguinte acabou o que nunca houve? Para quê a intensidade quando não há impulso para mais? Tanta paixão…

Da perseguição

Será que te lembras de mim? Sempre que alguém se acerca, me consome num abraço pleno, me agarra o cabelo com sabedoria e se dirige aos lábios com a vontade de como se fosse a primeira vez.
Será que pensas no meu toque? Quando outrem me roda com volúpia no amarrotado dos lençóis e me puxa para uma confusão de sentidos, intenso cheiro a corpos em batalha, arrepios, suor e gemidos.
Será que sentes a ausência da minha presença? Sempre que me aninho no peito de outro para adormecer, já derrotada pelo peso das horas, das decisões, da intensidade da caminhada, da entrega no sexo, e só busco amparo para usufruir da minha solidão.
Será que alguma vez vou escapar da perseguição da tua voz, da subtileza como me levantavas do sofá com malicia de quem se ia perder no quarto, da segurança do meu silêncio no teu? 
Vou gostar de ti, sempre. Mesmo que todos prazeres do mundo se desenlacem à minha volta, mesmo que não tenhas de mim qualquer imagem, será que alguma vez trocarei todas as emoções gentis que outr…

Do sorriso assassino

O sorriso assassino que me faz regressar para mais. Para outra reviravolta do que sou e para o estremecer das convicções, postas a nu pelo olhar destemido com que enfrentas esta dureza minha. 
E caímos numa cama suspensa, sem tempo, sem palavras que nos liguem ao mundo real, à média luz porque somos um jogo de sombras. Não destróis o meu escudo mas invades a minha pele. Não me desmantelas mas as peças combinam melhor contigo. 
Fujo, puxas-me. Quero, não dás. Doce guerra de forças, ironia de semblante silencioso, queda afectuosa no teu sorriso que me mata.

Não vás

Não vás, não desistas a meio do caminho porque a estrada não adere sempre do modo que esperas aos teus passos. O sinuoso caminho dá-nos o sentido de que que vivemos e traz-me mais próximo da tua inquietude. 
Não vás, não traves a vontade. Deixa-me dar-te palco para que te esgotes nos meus braços. Dá-me um lençol branco como tela vazia na qual pinto a minha insanidade como penas que caem num som que mais ninguém ouve. 
Não vás, mas sim sussurra em várias matizes de cor o que nos desperta. 
Não vás, aqui dentro acertamos a dança.

Do costume

Os tempos nunca batem certo. 
Quando começas a correr a maratona já se está a meio e não te deixam entrar. Já há um espaço em que os outros estão com o seu ritmo e o seu estilo. Os seus medos. Os seus amores passados que não passaram. As vidas que já se trazem plenas de história, de mágoa, de magia, de arrebatamento, de ansiedade, de ausência de paixão. 
Os outros que não abrandam para correr ao nosso lado, nem aceleram para nos vir buscar.
Nunca estamos em consonância. Nunca estamos no mesmo andamento. Nunca somos suficientes. Iluminamos a noite toda com a nossa força mas nunca somos lua cheia.

Do ser eu

Não és tu. Sou eu. Sinto as coisas sem as sentir de verdade. A minha essência é um modo estranho de distanciamento, de olhar através das pessoas e continuar a olhar para lá. Os meus olhos não pousam em ninguém, seguem em diante acumulando vidas, dor, histórias, dúvidas alheias, numa sucessão de miradas apenas em perspectiva.
Não és tu. Sou eu. Convive em mim a risada solta com o cepticismo. Sarcasmo e desdém como peças de roupa preferenciais. Acreditar em pouco, em nada. O tempo passa e acreditar torna-se menos uma opção. As cenas repetem-se e dar de nós, emoção, intenção, afecto, já não é uma ação nem uma consequência. É inconcebível.
Não és tu. Sou eu. Não vejo as coisas em branco e preto, acredito que há tanto mais de miscelânea quanto possibilidades de as zonas se cruzarem mas há cenários que estão desenhados como óbvios na minha mente. Imediatez do querer e o arriscar são naturais. Os “ses” toldam o caminho. Sinais de incerteza e indecisão são descartados com velocidade apurada de que…