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Mensagens

Da surpresa doce

Ele é gentil. Tem um olhar meigo que se adivinha por debaixo do ar sonhador, distraído como se as respostas e as linhas estivessem sempre no céu azul. 
Como se todo um filme de argumento delicado, fotografia suave, banda sonora que desinquieta e amores felizes se desenrolasse na sua cabeça à medida que caminha por Lisboa.E a mochila às costas só pesasse do livro e dos cadernos rabiscados com histórias e não com dúvidas e receios que o faziam retardar o passo.
Ele é tímido, quase frágil. Uma doçura acariciava os demais quando observa. Vê beleza com uma claridade qual sábado de inverno que se levanta sobre a cidade com a sua luz única. 
Há paixão inflamada sob aquela calma, como jazz que arrepia, que perturba, que faz gemer.Ele é uma surpresa doce.

Dos olhares que se desviam

E depois? Como nos olhamos outra vez? 
Optamos pela solução fácil de recolha cada um a seu canto, aindacom a adrenalina em alta do combate, mas com os hematomas devagarinho a aparecerem, corpo recostado nas cordas, feliz, miserável, a habituar-se à distância que aí vem. 
As marcas, por mais fortes, vão sarando à medida que os dias passam, sem nada mais acontecer.As dores ficam enquanto andamos no passo diário, nas musicas que ouvimos, nas piadas que queríamos partilhar, no que podia ser a dois mas é pedido para um. 
Regressos, novos abandonos, ou tudo igual. E aquele momento estranho em que apenas nos cruzamos, e um desvia o olhar. KO.

Da desesperança

Não, não estou bem, estou de rastos, aliás não estou assim desde que o conheci? Desde que aquela voz me acordou, que aquele sorriso cortou as mesmas conversas, o mesmo raciocínio, a cumplicidade, um não sei quê, um aperto no peito que enlouquece sem aparente razão ou motivo, uma dor que mata, que corrói, que dessossega, mas que enebria, que entontece, que perdura num travo suave de cravinho e rosas por entre sonhos sempre com o mesmo rosto que se afasta porque nada o prende, nada o cativa, porque não há motivo para ficar.
A dor não se mexe, permanece aqui dentro mas sou eu que não posso ficar agarrada a ela, sou eu que me tenho que desprender e zarpar veloz para a confusão, para o caos, perder as ideias, esvaziar a cabeça e pairar sobre tudo e sobre todos com a displicência de uma mente arrebatada e sem grandes desígnios! A vida não podia ser menos cor-de-rosa e mais ambígua que uma paisagem agreste e belicosa.
Porquê aquele dia, porquê tê-lo conhecido só para me enredar na teia sem qua…

Do estar ali

Ali estávamos. Sem assunto e com tudo para dizer. Num lento avançar para conquistar espaço ao outro como se fossem pernas a esticar-se num sofá, encostadas a outras, encaixando de modo natural duas pessoas em descoberta, sob o efeito de embriaguez de Michael Kiwanuka e de um frio cortante.
E estávamos ali. No perfeito desconhecido entre o abismo do que pode acontecer e a redenção do que se nos pode oferecer. Faltava somente um sinal. Um inclinar do olhar que despertasse a torrente de afectos contidos mas sedentos de encontrar uma finalidade.

Ali jazíamos tímidos e voluntariosos, com a mente a 1000 sob uma falsa calma, distantes e territoriais, sequiosos de nos rendermo-nos ao apelo do outro. E ali ficámos. Ainda ali estamos. Faltou a coragem para derrubarmos as almofadas, experimentar os beijos do outro, perceber que fazia tudo sentido, que o sabor era uma questão sem questão. Estamos paralisados pelo medo. Do que implica gostar.

Do ser indestructível

Somos indestructíveis. Não somos, na verdade, mas temos que nos imaginar assim - indefectíveis, resistentes, capazes de desferir o ultimo golpe, sorrir no momento da vitória, alimentarmos a nossa coragem de determinação intrínseca. Crer que temos em nós os trunfos, seguir os instintos, ir a jogo, correr riscos, seguir em frente quando levamos a pancada seca da desilusão, de mais uma entrada dura do adversário que não esperávamos. 
Não ceder ao peso do infortúnio, da intempérie emocional de todas duvidas que nos assolam. As respostas não chegam fácil só porque ganhamos mais quilômetros de vida. Só a dureza de quem sabe que vai ganhar, no meio do remoinho, nos salva e nos confere um sorriso único. 
Somos nós com todo desgaste, sem esperar redenção, à mercê da nossa curiosidade, paixão e vontade de ser mais. Somos temidos pelos outros porque sabemos que há em nós a dose certa de insanidade e fome que nos obriga a almejar. A cada dia com gratidão pelo que temos para nos deixar ir adiante e …

Das noites

Há noites em que o desejo tortura tal a necessidade. Em nós queima febril uma vontade de que não haja controlo, não haja restrições, os movimentos soltam-se com urgência e como se a sobrevivência estivesse em questão pelos beijos em sobressalto e a quente.
Não há regras, só pele a latejar. Não há certo nem errado, apenas suor e pedidos em gemido por mais. Não há mais ou menos, rápido ou devagar, há um arquear das costas. Não há horas, somente fome por possuir, com emergência, ânsia, súplicas. Não há lençóis ou edredon, há corpos nus em dança a dois como se fosse ensaiada vezes sem conta ainda que fosse a primeira vez que as roupas tenham sido roubadas com brusquidão, e a exposição completa tenha sido uma revelação ainda mais propulsora. Não há noção de espaço, todos os cantos são território a conquistar sob farta intensidade e poderoso engenho.

Há noites que nada faz sentido sem ser não ter noção e perder os sentidos entre música e o som do roçar de cansaço e prazer. Noites sem fim de …

Da porta

Há uma porta que balouça ao sabor da corrente de ar. Que nunca se fecha, em perpétuo movimento, à espera. De algo novo, de algo que não sei prever, de algo pelo qual busco incessantemente. 
A porta agita-se mais consoante a minha insatisfação aumenta, quando a demanda se torna sufocante. Quando o imediato e a impaciência se aliam para me alimentar o caos. 
A ausência de equilibro faz a porta movimentar-se mais depressa, a ranger com um som que me rouba o sossego, que ampara e desperta a inquietude. A porta sucumbe a esta ventania, quase salta no remoinho e eu não sei se a atravesse com toda a fúria que há em mim, se resista com temperança. 
O que seja, sou total, inteira. Mesmo ante a porta que não se encerra, que há anos me desafia a uma busca que não tem fim, que desgasta a madeira pelo cansaço, pela insatisfação, por algo que falta. E o chão está massacrado pelo fluir da porta pese embora que é neste contínuo andamento que está a minha história, a minha entrega, o meu distanciamento e…

Da coragem descrente

Ser genuíno. Não rendilhar com hesitações. 
Ser honesto, ser completo e ir atrás do que se quer. Sem receio de julgamentos. Recusar jogos de fingir, de teatro, de sombras e bailado em pontas para não causar danos em outros que vivem à defesa. Conscientes dos riscos, dos novelos que nos condicionam e afastam do que queremos. Saber quando parar e assumir o que não vai acontecer. 
Ter a lucidez de sentir a paixão a arrastar-se por nós, a sulcar-nos em cada novo acordar, e mordê-la, submetê-la ao silêncio pois não passará disso: uma dor galopante pelo corpo na solidão de todos dias. 
Ter o discernimento de aceitar que as desilusões são parte desta pele exausta e fria e que são hábito feito vida. 
E nesta clarividência trilhada em gritos mudos, vamos recomeçando a cada nascer do sol, quando o banho lava as nossas resistências e o espelho nos devolve o que somos. Verdadeiros. Corajosos. Descrentes. Sofridos. Só nós.

Da bagagem vazia

Hoje queria ir.

A força da dúvida empurra-me para a fuga. A expectativa do que pode estar pra' lá faz-me não querer esperar. O quando é uma dor dilacerante. 
Preciso de partir. Sem nada na mão. Só a minha bagagem vazia e a vontade como declaração.

Do tempo que houve

Houve um tempo em que ele a desejava com certeza, veemência e tentação. Que pegava várias vezes ao dia no telemóvel para lhe ouvir a voz. Para lhe escrever como a queria. Que num flash lhe aparecia a imagem dos seus dedos nos revoltos cabelos negros que a ela caiam sem restrições pelas costas. Que o cheiro dela estava preso em todo ele, alguns dias tão intenso de saudade que a demência rondava.
Houve um tempo em que esticar-lhe a mão, arrebatá-la para o seu peito, deitá-la com leveza nas penas do colchão, era o seu motor enquanto corria, sob chuva, sob frio, sob sol sem clemência. Enquanto bebia copos com amigos noite dentro em tertúlias que o deixavam esgotado por sentir-se tão só.
Houve um tempo em que teria dito tudo que lhe apertava a alma e toldava o ar. O exercício de respirar com aquele peso no peito tornara-se hábito duro, feroz, ardiloso e um massacre com o qual já lidava com facilidade. Teria sido célere libertar-se, houvera dela um sinal de que esperava por ele, que lhe daria…

Da chuva

Cerram-se as nuvens em torno de nós a ameaçar diluvio e de imediato os teus braços ganham força. Fecham-me em ti enquanto a tormenta se abate lá fora e o frio insiste que me protejas. Me incites a vontade. Alma em balouço embalada pelo som da chuva e pela tua respiração. 
Voracidade a despique sem vencedores, ambos vencidos pela exaustão, gargalhadas e palavras. O céu cinzento entra por todas as janelas e ilumina as paredes de cada vez que sucumbo. Um planetário só nosso. 
Chove e as tuas mãos sossegam, alucinam, desferem desejo. Chove e é como se reinasse uma febre em nós.

Do Agora

via the girlfriend experience
Agora dizes que fui um ponto de inflexão. Que fui quem parou o jogo de máscaras. Que te antecipou as jogadas e apanhou o bluff. Que te leu. Despiu todas as estratégias de força. Que te desmontou as peças. Que te reconstruiu com mestria. Que fui eu que vi as vulnerabilidades e as transformei em setas hábeis. Que te injectou confiança num chuto de força com coragem.
Agora pedes para voltar. Que percebeste o quão fácil era seres tu aqui. Que neste território a agressividade era um estímulo. A paixão, avassaladora e orientada à transformação. Contínua. Que nenhum dia era igual ao outro. Que o desafio era estar à altura do desafio. Que as emoções ecoavam pelas paredes de tal a intensidade como queria viver o arrebatamento que nos unia. Que essa propulsão era lenha para a tua vontade de te entregares.
Agora queres que eu esqueça. Que antes nada disso te interessou. Que naqueles dias buscavas algo menos profundo para as noites. Ou algo mais dentro das linhas. Ou a…

Do que não é suficiente

São os abraços quentes, ternos e que permitem rendição. São os beijos inesperados, fortes em tremor, desejo confessado ali mesmo, sentimento de pertença no sítio e hora certos, um sabor que escalda no mais profundo do nosso interior. São mãos sabidas que percorrem as costas com dolência e sentimento de protecção. 
É um conforto que embala, que ampara, que anula a ânsia que consome. É bom. É suave e explosivo. É calma e pressa. É desfrutar e consumir avidamente.
E porque não é suficiente? E porque não nos deixamos ir em prazer e em queda livre sabendo que vamos aterrar e tudo fica bem mesmo que possamos esfolar um joelho? Porque se viram as costas, se negam as pessoas, se ignoram os toques de pele e o suor nas almofadas? Porque escasseia o tempo e sobram as razões para o "não"? Para onde vai a vontade, a paz do abraço, a magia do beijo, a antecipação de mão na mão? 
Fodemos mais a nossa alma do que os nossos corpos.

Do apenas eu

Se fosse um elemento, que fora vento para correr veloz, fustigar as alamedas não lineares que me pautam sem as tentar acalmar.
Se fosse um animal, que fora cavalo, solto, selvagem, dócil para alguns, indomável para todos os demais.
Se fosse uma cor, que fora de um azul exuberante, profundo, indecifrável, intenso.
Se fosse objecto, que fora uma caneta sem limite de tinta para que nenhuma palavra, nenhum pensamento, nenhuma dor, nenhuma alegria ficassem perdidos sem repousar num papel.

Sendo eu, e apenas eu, velocidade, inquietação, fervor e criação coexistem em caos, ora mais aceso ora mais em recluso, mas em mim, só para mim, por mim.

Da dor indizivel

Somos profetas da dor indizível. Receamos que se a desenharmos com contornos ela ganhe vincos abrasivos de giz a raspar na ardósia. Cortará ainda mais o que já de si nos foi sulcando a pele curtida pela imprevisibilidade, pelo cansaço, pela temperança que não desejamos. 

Somos escrivas de olhares que pedem muito em troco do mesmo nada, encostados a doses finitas de emoção e sorrisos que apenas se abrem.
Grassa em nós a exaustão onde pulsa a vontade, o desalinho, a ausência de um sol apaziguador de quem anda em tempos desencontrados.

Da chama rápida

Somos tão breves. Leves. Apenas momentos. Insistimos em transportar peso. Tensão. Desnecessário. 
Não controlamos, de facto, tudo. Ou alguma coisa. Há sempre algo que queremos que não vamos ter. Por muito que o desejemos, que o desenhemos na nossa mente como uma ilustração com cheiro, com sons roucos, com suor, com arrepios de prazer. A realidade, por si, e para nos relativizar, é feita de uma malha tecida com anos, com entregas, com construção cuidada, com os desígnios do que é uma edificação, as aspirações do que é a história de alguém. 
E somos um flash. Uma carruagem de metro em alta velocidade que se acerca da plataforma, abre as portas para toda uma nova viagem, e a aventura que queremos não começa ali. O metro segue. Fomos apenas uma paragem no terminal, não houve quem entrasse.
Vale a pena esperar por mais? Complicar? Sentir?
Somos instantes. Para quê a fogosidade, se no segundo seguinte acabou o que nunca houve? Para quê a intensidade quando não há impulso para mais? Tanta paixão…

Da perseguição

Será que te lembras de mim? Sempre que alguém se acerca, me consome num abraço pleno, me agarra o cabelo com sabedoria e se dirige aos lábios com a vontade de como se fosse a primeira vez.
Será que pensas no meu toque? Quando outrem me roda com volúpia no amarrotado dos lençóis e me puxa para uma confusão de sentidos, intenso cheiro a corpos em batalha, arrepios, suor e gemidos.
Será que sentes a ausência da minha presença? Sempre que me aninho no peito de outro para adormecer, já derrotada pelo peso das horas, das decisões, da intensidade da caminhada, da entrega no sexo, e só busco amparo para usufruir da minha solidão.
Será que alguma vez vou escapar da perseguição da tua voz, da subtileza como me levantavas do sofá com malicia de quem se ia perder no quarto, da segurança do meu silêncio no teu? 
Vou gostar de ti, sempre. Mesmo que todos prazeres do mundo se desenlacem à minha volta, mesmo que não tenhas de mim qualquer imagem, será que alguma vez trocarei todas as emoções gentis que outr…

Do sorriso assassino

O sorriso assassino que me faz regressar para mais. Para outra reviravolta do que sou e para o estremecer das convicções, postas a nu pelo olhar destemido com que enfrentas esta dureza minha. 
E caímos numa cama suspensa, sem tempo, sem palavras que nos liguem ao mundo real, à média luz porque somos um jogo de sombras. Não destróis o meu escudo mas invades a minha pele. Não me desmantelas mas as peças combinam melhor contigo. 
Fujo, puxas-me. Quero, não dás. Doce guerra de forças, ironia de semblante silencioso, queda afectuosa no teu sorriso que me mata.

Não vás

Não vás, não desistas a meio do caminho porque a estrada não adere sempre do modo que esperas aos teus passos. O sinuoso caminho dá-nos o sentido de que que vivemos e traz-me mais próximo da tua inquietude. 
Não vás, não traves a vontade. Deixa-me dar-te palco para que te esgotes nos meus braços. Dá-me um lençol branco como tela vazia na qual pinto a minha insanidade como penas que caem num som que mais ninguém ouve. 
Não vás, mas sim sussurra em várias matizes de cor o que nos desperta. 
Não vás, aqui dentro acertamos a dança.

Do costume

Os tempos nunca batem certo. 
Quando começas a correr a maratona já se está a meio e não te deixam entrar. Já há um espaço em que os outros estão com o seu ritmo e o seu estilo. Os seus medos. Os seus amores passados que não passaram. As vidas que já se trazem plenas de história, de mágoa, de magia, de arrebatamento, de ansiedade, de ausência de paixão. 
Os outros que não abrandam para correr ao nosso lado, nem aceleram para nos vir buscar.
Nunca estamos em consonância. Nunca estamos no mesmo andamento. Nunca somos suficientes. Iluminamos a noite toda com a nossa força mas nunca somos lua cheia.