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Mensagens

Da luz e da sombra

O dia do casamento chegara com os nervos próprios de noiva. Ela tremia, de vez em quando, mesmo estando só no quarto de hotel onde se havia preparado com o vestido branco, caro e perfeitamente ajustado ao corpo. No mesmo quarto onde lhe haviam penteado o longo cabelo louro num puxado perfeito e elegante. Onde a haviam maquilhado em tons de uma beleza intocável. 
Sentada no tocador, olhando-se ao espelho, manifestava uma aparente calma mas os olhos bailavam agitados, receando que algo estivesse fora do sitio correcto. Os sapatos de salto desafiador aguardavam, alinhados, ao lado da banqueta. As flores, num arranjo sem mácula, estavam à sua frente, prontas a desfilar por entre o publico que aguardava a grande festa. O perfume, mandado fazer por encomenda, para ela, para a ocasião, jazia no frasco de vidro minimalista depois de o ter espalhado com estratégia cirúrgica na melena, no pescoço, nos pulsos. 
Bateram à porta. Duas pancadas secas. Era o aviso. Faltavam cinco minutos. 
Arqueou os o…

Da intensidade do hoje

E um dia o espelho devolve-nos uma imagem exausta, fatigada pelo rigor das lâminas que fomos deixando alojar, pelas rugas sulcadas sob o peso das lágrimas que não admitimos verter.
O que vemos é uma versão nossa não realizada, um amontoado de insónias, noites mal dormidas pelas voltas da cabeça em fuga, em choque, em dor. Pelo que não aconteceu. Pelas escolhas e pelas perdas que cada uma delas implicou.
Em cada vinco da pele uma trovoada. Uma reviravolta do tempo que deixou convulsões. Dívidas não cobradas de carinho, de confiança, de abraços que ficaram por dar, por receber, onde não nos deixámos descansar nem esquecer que lá fora o vento arrasava tudo.
Contra a marcha imperial dos dias, há que viver com paixão sem fim, com entrega, com fervor pela individualidade e intensidade do hoje. Não depender do que possa suceder, dos afectos que podem chegar, dos olhos que poderão pousar em nós. Viver, abrir os braços ao mundo com irreverência e não permitir que o caminho se atravesse por mais a…

Das esperas

Esperas por mim.
Todas as noites como em todos os dias em que não nos havíamos ainda conhecido. E foste aguardando. Até que nos cruzámos sem pressas num local estranho isento de culpas, de pressas, de barreiras. Pleno de silêncios, de um abraço sem fim, de encanto.
No meio do caos, dos riscos, do frio, dos medos, das circunstâncias acidentadas, vagueavas à minha espera. E eu fugia por entre estradas fustigadas sabendo de antemão que chegar a um refúgio era construir algo que seria mordida de serpente.
E sucumbi à espera. Nos teus braços encerrada encontrei paz. Com o teu corpo a proteger-me, sentiste que a espera fora apenas uma passagem breve para um mar picado mas sempre em desafio.

As ondas colidem sempre que nos deixámos de esperar. Batem com força e morrem suaves na areia. Esperas por mim no paredão. Até quando?

De não te saber

E se nunca te vi e, ao cruzar-me contigo, estremeço sem perceber as razões? E as pernas que fraquejam perante um coração que dispara como cavalo selvagem livre em campo aberto?
E não consigo evitar de buscar-te entre a multidão que não me interessa e só gera ruído até que os nossos olhos se fixam com intensidade e, neste frame, imagino uma queda no tapete com roupas tiradas devagar por oposição ao consumo veloz da boca.
Não te consigo desenhar com precisão mas sei-te de cor pelo toque arrojado, pelo desejo incontido, pelo abuso ávido com que me tens e me usas. Existes em mim, sinto-te a passar-me a pente fino as emoções com aspereza e efeito destruidor, quando nos submetemos, à vez, aos caprichos de cada um que preenchem o outro.

Do céu imenso

Olhamos o céu e potenciamos a capacidade de nos realizarmos em pensamentos. De ver sob um angulo sem espessura a matéria que nos reafirma e preenche. 
Nós e o infinito de possibilidades por mais agruras que nos rodeiam. Nós e a solidão, apesar de quem passa, quem está, quem anda em pêndulo entre o nosso abraço e a dúvida, quem não quis estar. Nós e o silêncio, esse amortecedor de inquietudes. Nós e o que falhou em pancada seca como dor em ladainha, o que não vamos repetir, o que jurámos expurgar das roupas a que chamamos dia seguinte. 
Nós e apenas nós, pois o céu é imenso, acalma, sana o que não se descreve mas não comporta outro fôlego.

Da surpresa doce

Ele é gentil. Tem um olhar meigo que se adivinha por debaixo do ar sonhador, distraído como se as respostas e as linhas estivessem sempre no céu azul. 
Como se todo um filme de argumento delicado, fotografia suave, banda sonora que desinquieta e amores felizes se desenrolasse na sua cabeça à medida que caminha por Lisboa.E a mochila às costas só pesasse do livro e dos cadernos rabiscados com histórias e não com dúvidas e receios que o faziam retardar o passo.
Ele é tímido, quase frágil. Uma doçura acariciava os demais quando observa. Vê beleza com uma claridade qual sábado de inverno que se levanta sobre a cidade com a sua luz única. 
Há paixão inflamada sob aquela calma, como jazz que arrepia, que perturba, que faz gemer.Ele é uma surpresa doce.

Dos olhares que se desviam

E depois? Como nos olhamos outra vez? 
Optamos pela solução fácil de recolha cada um a seu canto, aindacom a adrenalina em alta do combate, mas com os hematomas devagarinho a aparecerem, corpo recostado nas cordas, feliz, miserável, a habituar-se à distância que aí vem. 
As marcas, por mais fortes, vão sarando à medida que os dias passam, sem nada mais acontecer.As dores ficam enquanto andamos no passo diário, nas musicas que ouvimos, nas piadas que queríamos partilhar, no que podia ser a dois mas é pedido para um. 
Regressos, novos abandonos, ou tudo igual. E aquele momento estranho em que apenas nos cruzamos, e um desvia o olhar. KO.