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Mensagens

Do lugar certo

Sentia-se cansada, com cabelo indomável, cara queimada do sol, exausta, mas com desejo sem fim. Queria-o. Com ele era a intensidade certa, a profundidade certa, a força certa, o aperto certo. E o beijo. Tesão imediata e única com um abraço sem igual. O melhor. Com ele dormia sempre tranquila. Nos braços certos.
Na sua ausência, de alguém que a preenchesse assim, depois de todos demais falhanços, sentia a falta da violência daquela paixão agressiva que lhe consumia todos os cantos da mente até não se lembrar de nada mais. Apenas que era dele, toda sua e sem volta atrás, sem apelo, sem pensar, sem controlo, dor e submissão e, por fim, aquele rasgo de meiguice. Um afecto só deles. Tudo se rompia, sem pudor, até todas dores e rejeições saírem, até todos os enganos e dissimulações serem abolidos da sua mente.
Queria-lhe o toque animal. O olhar de quem a devora e, sem hesitações, solta todos os seus demónios, dominando os dela e libertando os de ambos. Queria a sua vontade quebrada, sentir-se…

Da elegância do beijo

A madrugada já vai longa e só agora partes pois é cada vez mais difícil que nos separemos. Nenhum o admite, no entanto, respira-se um travo de calma e boa-ventura no torpor do corpo e na elegância do teu beijo de despedida.
À janela, recolhida sob um lençol, vejo-te acender um cigarro e, parado, absorveres o frio matinal para apaziguares o desejo. De estar. Apenas. Ainda que tão difícil de dizê-lo.
Somos tão iguais. Caídos num silêncio que nos conforta, que nos esconde das confissões, sustenta o brilho dos nossos olhos e nos aproxima apesar dos bloqueios em manifestar mais do que um ardente toque.
Quando partes, sinto-te a falta. Enquanto não regressas, sinto-te a falta. E tu não és diferente. Quando regressares, apertas-me com tal força que sei que trazes o fresco do fim do dia e paixão amplificada. 

Das mentiras que te menti

via boudoir photography
Sim, é verdade, fugi. Escapei-me sem que desses por isso e fechei a porta; antes ainda te olhei uma última vez porque apesar de não saber porque partia e que força era aquela que me empurrava, sabia que te queria.
Também já te tinha abandonado tantas outras vezes. Seguramente que reparaste e foste-te sarando as feridas ao ar sem tratamento porque não me redimi.
Quando te deixei à espera para jantar porque prolonguei telefonemas com amigos sem me lembrar de te avisar que me ia atrasar apenas por estar a por a conversa em dia. Quando tu aninhada a mim me provocavas, a quente, e eu parava, de forma desinteressada, para dar atenção ao telemóvel com temas não prioritários de gajos. Quando te deixava num local e arrancava sem sequer esperar que atravessasses a estrada. Quando saíste a primeira vez da minha casa, numa madrugada fria, com Uber ainda por chegar, e que apesar de pleno pela pessoa que eras, certo que te adorava, mas nem sequer me levantei para te levar à por…

Das mentiras que ouvi

O corpo vigoroso rolou na cama e enroscou-se nela para completar o seu sono. Era belo. Jovem. Meigo. Abraçou-a e continuou a dormir, em paz. Ela não o quis acordar e deixou-se estar naqueles braços que por esta noite, como noutras tantas, vieram em seu socorro para acalmar a fome, a falta de calor, a dureza de palavras que ainda lhe ecoavam na pele, no espírito, na memória quando tentava dormir.
Os danos repercutem-se tempos a fio sem que saibamos quando cessam. Os riscos, as apostas, os desejos, o carinho nunca são suficientes. Nunca preenchem todas as necessidades, vazios, afectos. A sensação de ficar sempre aquém perseguia-a como um formigueiro. A atitude cínica tornara-se como uma dormência constante, mecanismo de alerta para que nunca suavizasse a defesa.
Ele beijou-lhe um ombro, a dormir, de instinto e não amor. Devolveu-a do torpor e lembrou-a das noites sem fim protegida por um outro abraço, no qual desaparecia com facilidade e felicidade sob palavras reais que eram apenas vãs. …

Da invasão

Amei-te assim que te quis. Senti-me presa a ti assim que soube que estavas na minha vida. Desejei-te todos os dias desde que me invadiste. 
Soltaste-me a curiosidade.  O inesperado. 
Enches-me de alegria. mesmo quando não sei o que fazer contigo, como agir, como ser o meu melhor; e ainda assim ilumino com a tua presença. Sou a mesma mas numa versão upgraded. 
Esperei-te, queria-te. Há toda uma aventura que nos guia.

In memoriam

Atravessei uma imensidão de deserto árido e floresta densa abrasadora para chegar ao mar. Andei em guerra comigo e com o mundo, com moinhos de vento, com a minha sombra. Uma pressa. Uma avidez em superar-me. Em preencher-me. A ansiedade de provar, a mim, aos outros. Intensidade em tudo, opiniões, decisões, sentimentos. Viver no limite do arrebatamento.
Cansa. Desgasta. Não elimina sensação de vazio. Não traz mais paz de espírito. Há uma gula continua pelo amanhã. Por outras coisas. Por satisfação. Por descoberta. Por motores em sobrecarga, potência máxima como se o mundo fosse acabar e tudo tivesse que ser esgotado.
E um dia queres qualquer coisa que não sabes o que é. Sabes que é outra coisa. É algo que te alimenta a paixão, a vontade de viver com risos, dar suporte para as quedas, uma construção em que participas e que te sentes cada vez mais envolvida, não arremessada para segundo plano. É teu. É de alguém.
Queres calma mesmo sem perder dose de loucura. Queres silencio pelo meio de um…

Da felicidade

Todos dias. Todos dias construímos um pouco de felicidade. Pode ser efémera. Pode não ser um continuo mas andamos de mão dada com ela. 
Apenas um elogio de alguém que não nos conhece. Um abraço apertado de alguém a quem chamamos amigo. Uma gargalhada honesta e profunda que liberta uma descarga de bem estar. Aquela música que de repente o DJ passa e nos arrasta para a pista e dançamos de olhos fechados, numa trip só nossa. A sensação de alívio e satisfação por algo que correu bem. Ver o nascer do sol quando já começa a puxar o calor. Embrenhar-nos num livro que nos afasta de tudo o resto. A emoção de um bailado tão vibrante como subtil. As festas no cabelo à laia de proteção quando nos recolhemos nos joelhos de quem nos ampara para chorar os cortes. Os golos do Jonas. O primeiro mergulho no mar e o tempo parar, por entre sal e solidão. Entrar nos jeans que não são vestidos há um ano. A mensagem que chega de surpresa e nos ilumina o rosto e dispara a adrenalina apesar do texto mais patet…