Avançar para o conteúdo principal

Das pequenas coisas






Talvez sejam as pequenas coisas. Como uma música que se ouve por acaso e se torna uma descoberta que nos marca um trânsito. Como um gelado fora de horas e com o sabor simplesmente certo de caramelo tal qual na nossa infância. Como aquele instante rápido entre fazer-nos à onda e o mar que nos toma por completo, nos restitui a energia e nos devolve ao mundo.

Terão que ser as pequenas coisas. A partir delas, tudo se enreda e o equilibro pesa para o complicado. Sinuosos os caminhos para que nos encontremos. Doloroso o andamento que faz que nos afastemos mais do que estejamos próximos mesmo quando tudo aponta para que haja uma cumplicidade e uma ligação súbita mas forte e consistente.

O toque é denunciador. Desmantela as forças e faz sucumbir com tamanho ardor. O beijo que transporta silêncio, paz, meta. O abraço que acolhe uma gargalhada e o estranho sentido de que tudo está bem.

São estas pequenas coisas. Que são fáceis e leves e perenes. Tão frágeis. Acabam tão depressa. Nada há-de ser fácil. Nada pode ser tão confortável. Nada nos pode ser permitido por ganhar asas. Somos bombas relógios e alvos a abater numa combinação simultânea de fragilidades.

São as pequenas coisas que nos trazem uma centelha de que a vida está a pulsar e pede que nos deixemos ir. E por elas nos enredamos e nos destruímos mais um pouco. Ou ardemos na totalidade. As pequenas coisas dão-nos alento e corroem-nos quase de imediato. Somos emocionalmente apáticos. Deixamos que as pequenas coisas do passado criem uma cratera na nossa capacidade de estar. E as pequenas coisas que nos vão acontecendo são milagres momentâneos que nos roubam de seguida. Ou que roubamos a nós próprios porque não sabemos lidar com as coisas da vida.

Pelo meio das pequenas coisas, que podiam abrir o caminho para um grande algo, perdemos a esperança, gastamos as últimas moedas e desistimos de construir.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Do acosso

Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência.  O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas.  A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado. E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade.  A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.

na verdade, estou lá (4)

Villa Amanda The Corridor - Blue Sea, Cabo San Lucas, Mexico via Luxuary Retreats

na verdade, estou lá (6)

Calandra Porto Rotondo, Sardinia, Italy via Luxuary Retreats