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Mensagens

Da felicidade

Todos dias. Todos dias construímos um pouco de felicidade. Pode ser efémera. Pode não ser um continuo mas andamos de mão dada com ela.  Apenas um elogio de alguém que não nos conhece. Um abraço apertado de alguém a quem chamamos amigo. Uma gargalhada honesta e profunda que liberta uma descarga de bem estar. Aquela música que de repente o DJ passa e nos arrasta para a pista e dançamos de olhos fechados, numa trip só nossa. A sensação de alívio e satisfação por algo que correu bem. Ver o nascer do sol quando já começa a puxar o calor. Embrenhar-nos num livro que nos afasta de tudo o resto. A emoção de um bailado tão vibrante como subtil. As festas no cabelo à laia de proteção quando nos recolhemos nos joelhos de quem nos ampara para chorar os cortes. Os golos do Jonas. O primeiro mergulho no mar e o tempo parar, por entre sal e solidão. Entrar nos jeans que não são vestidos há um ano. A mensagem que chega de surpresa e nos ilumina o rosto e dispara a adrenalina ape...

Dos atrevimentos

Não te prives de quereres.  Atreve-te a saber o que desejas e a desejá-lo com força.  Imagina todos os dias o que te apetece.  Não traves o possível.  Vive intensamente o que te dá tesão.

Dos avisos

Se te tivesse que te dizer algo sobre ela, avisar-te-ia que não te aproximasses. Ela é séria, brusca, de olhar assassino. Não tem tento na língua, nem limites na capacidade de ser honesta, e em ser directa como um machado afiado que atravessa entre as costelas e não cede espaço. Mas o que a torna verdadeiramente letal é a sua capacidade de auto suficiência num mundo estranho que a penaliza pela lealdade, pela ausência de julgamentos ou moralismos, pela sinceridade desabrida quando todos escondem as suas intenções entre sombras. A sua perigosidade advém do respeito pelo outro mas, sobretudo, e como prioridade, por ela própria, pela impossibilidade técnica de mudar em prol de algo ou alguém, e de aceitar com naturalidade que tal implica ser rejeitada muito mais que amada. Ela basta-se. Ela exige. Muito. De si mesma. Não depende de ninguém. Sabe onde estão as falhas mas glorifica a sua luz. Tem tanto de fascinante e de temerária como de inquieta e perturbadora. É c...

Dos dia 2

Primeiro, é ter a confiança e por os pés no chão. Com brio. Cabeça erguida.  Com cautela mas sem nada temer. Os nossos pés são únicos, saberão qual o trajecto que nos levará aquele sítio que tanto ansiamos.  A cada passo, que seja tranquilo por muito doloroso que o caminho se nos dificulte em cada metro. É um pé ante pé, mas determinado por muitos obstáculos e medos. É a segurança de que estamos a traçar o nosso próprio sapateado.  A dança é só nossa, os pés desafiam com temperança e elegância e paixão.

Da fronteira imaginária

Ele deitou-se e no silencio, na escuridão, na solidão e imaginou-lhe o cheiro solto do cabelo que lhe costumava cair no peito quando ela se aninhava nele a ler. O sabor vibrante, sequioso, apaziguador da sua boca quando o calava por entre risos e desejo evidente. Ela partira. Tinha ido há já algum tempo mas não sabia determinar quanto. Parecia-lhe muito desde que a porta batera com um estrondo e os saltos dos seus sapatos tinham ecoado nas escadas de madeira antiga. Desligara o voice mail portanto não lhe podia deixar mensagens. Havia-o bloqueado, não lhe podia ligar nem chamá-la pelas redes sociais, para lhe repetir à exaustão como sentia falta de dormir encostado a ela. De a ver maquilhar-se pela manhã com precisão paciente e fria. Das respostas mordazes e cirúrgicas sempre na ponta da língua, pronta a provocar quem estivesse em seu redor. Estiveram tão perto mas deixaram tudo invadir pelo meio. Ele permitiu-se ao luxo de não lhe dizer quanto a amava, todos os dias. ...

Das contas que não se ajustam

Não peças desculpas, não há contas a ajustar. Não lamentes só porque te faz sentir bem essa superioridade compadecida que supostamente apaga todos rasgões. Não presumas que percebes, apenas porque te dei o que precisavas de modo genuíno e sem nada pedir em troca. Não aceites que é jogo de soma nula porque apesar do que ganho, mais perdes tu pelos meandros dessa obstinada forma de magoar. A verdade é que apesar de amarga, sabe-me a vitória. Sem sombra de culpa.

Dos pedidos

via  boudoir photography Pediste-me que esquecesse as reservas e baixasse a guarda. Construir é entrega para um bem comum sem esgotar o nosso universo, sem extinguir chama própria. Pediste-me que acreditasse na força das tuas mãos nas minhas costas. Na tua boca a devorar-me o pescoço. No carinho dos teus braços em mim. Na vontade de o repetir todos os dias. Pediste-me que não ficasse na sombra, não deixasse o lado mais negro toldar as minhas decisões e a reger os meus receios e hesitações, que me libertasse dele para sob um riso contagiante entrar num caminho mais cómodo, de quem genuinamente gosta. De quem se quer. De quem almeja a descoberta e a conquista diária. E, embalada no afago das tuas certezas e no calor da tua voz, acedi com convicção de que não seria uma vez mais uma batalha perdida e um reflexo imaginário. Algures pelo caminho, perdi-me. Sucumbi que nem folha de papel ao engano. E podia pedir-te misericórdia; prefiro não ceder mais e subir as ...