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a insustentável existencia da burguesia

Socorro, no espaço de uma semana chamaram-me burguesa. 2 vezes. 2 gerações diferentes. ambas mais novas que eu
A sério, socorro

Para mim, é super insulto. Sei que não era essa a intenção. Mas demoliu-me como castelo de cartas.

Ser burguês para mim é alguém que teve ideais de vida (qualquer que seja desde salvar as baleias, lutar contra o aumento das portagens, abrir as asas e conhecer o mundo) e acomodou-se à vida de adulto.

Casa-emprego para pagar os 2 plasmas, o homecinema, as férias na neve para onde todos vão, a viagem ao nordeste brasileiro. A carrinha para 2 porque a prole aumentará algures, endividar-se para o casamento na tenda na quinta, a vaidade do vestido meio pavoroso, a alegria idiota com a bebedeira dos tios, a cretinice do leilão da liga, o atirar o bouquet (linda a cena no Sexo e a Cidade em que o bouquet cai perto das 4 e nenhuma sequer se mexe).

Ir ao cinema para apenas ver blockbusters mas atender o telefone ou nao perceber as piadas. Jantar acima do cartão credito para dizer que se foi à bica do sapato. Optar pela novela vs ir ao teatro, pelo jogo da selecção em vez de ir ao MUDE. Ler a porcaria dos vampiros (nota: eu leio Dan Brown, mas leio muito mais que isso) e achar que é uma obra de arte.


Morria de medo disto, de secar a curiosidade e o abraçar do mundo para me entregar à zona de conforto do T3 com banheira de hidromassagem (que saudades da minha, confesso). De parar de viajar e conhecer novas janelas de vida para pagar as prestações e dar de mamar ao típico paradigma dos 2 filhos. De conversas com amigos para me encerrar a ver blueray em 50 polegadas.

Aburguesar é encarneirar. É ser comoo todos os outros. Não quero.

Claro que gosto de viver numa casa confortável com jardim no centro da cidade mas estava igualmente feliz nos meus 50m2 em Benfica. Não precisava de empenhar a minha alma ao diabo para ir para Telheiras. Não hipotecaria os meus 50m2 por uma moradia fabulosa ou uma casa em condomínio mas que me amarraria a uma vida em função da casa. Quero um blackberry, é certo, quero ir jantar fora, quero ir a Londres e a Nova Iorque e a Milão, outra vez. Ir ao Prado.

Quero sempre mais uma mala, não quero estar 2 dias e 2 noites na fila para meter um filho no colégio X. Pele de galinha.

Quero abrir os olhos e sentir-me eu, não igual a todos demais.

Parem de me chamar burguesa ou corto os pulsos.

Já me basta o trabalho sugador de vida e sentimentos, sem reconhecimento, e pouco inspirador; já me basta que os presentes de natal do agregado familiar seja uma coisa para a casa; ou um namorado que leva horas no Ikea ou no Continente a escolher a mostarda e o azeite certos!

Chamem-me consumista que adora futilidades de gaja mas que sabe quem é o presidente da russia, ou o treinador do Sp Braga; ou o que significa Carmina Burana; a origem geográfica da Ford (ha quem ache que era Inglaterra); que sabe quem é o lider da bancada do PP, partido em que nunca votaria, que sabe e acredita no projecto da UE; que lê a Vanity fair e a Caras.

Chamarem-me burguesa é ir-me à canela, com entrada a 2 pés, à Hulk.

E pesa demais na minha consciência. Em que merda errei? Estou lixada

Comentários

Xana disse…
Adorei...burguesa :p Vá nao cortes os pulsos, suja tudo e é uma maçada..:s Lê antes mais uma Caras, ah pois..os CTT nao te entregam as pubicações lol É definitivo, tás tramada...
bjs
Luisinho disse…
fico fascinado com a riqueza do teu texto e o encadeado de temas e as metáforas mais improváveis!!!! e também me escangalhei a rir! e também acho que deverias explorar a tua veia de colunista! Eu seria um leitor assíduo!
Tigrão disse…
Uiiii, começa a gerar-se uma onda de fãs da literatura bloguista. Eheheh.
Tardou mas começam a aparecer e é bem merecido!
Pode ser que um dia destes se arranje um espacinho no "Diário de Viseu"...
Mónica disse…
obrigada pelas palavras! Luis e Xana voces são uns mega aditivadores de ego. Sobretudo o Luis que tem sido impecavelmente porreiro desde dia 1. Eu ponho ca a tua publicidade (juro! quando queiras). Mesmo tendo-me chamado burguesa, bom... xana... tb te curto

estou mesmo abatida com a cena do burguesa

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Do acosso

Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência.  O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas.  A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado. E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade.  A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.

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