Avançar para o conteúdo principal

Bem-vindo aos 35 anos, Melhor Amigo - Parte II







Quando conheci o Bêzinho, ele mal abria a boca. Não é que fosse criança, mas era a pessoa mais tímida que já alguma vez conhecera.

Se um professor lhe dirigisse a palavra, ele corava (e muito) antes de conseguir responder o quer que fosse. Estava sempre muito sério nas aulas, muito caladinho, aparecia com o seu kispo verde e mochila às costas e nós muitas nem dávamos por ele ter chegado.

Para seu azar, ficou sentado na ultima fila ao lado do S., na carteira ao lado da minha (que partilhava com a Anabela) e isso mudou-lhe a vida. Nós demos cabo dele, mas para melhor. Nós éramos (somos) desequilibrados (perdoa-me Anabela!) e arrastámos o miúdo para a rambóia alucinada.

O Bêzinho tinha os olhos mais doces da escola. São grandes, intensos mas muito carinhosos. Como ele. Um coração grande, uma capacidade intensa de dar e um carinho tremendo pelos seus amigos.

Durante anos, após o liceu, fomos os grandes companheiros de fim de semana. Compras, cinemas, lanches, saídas à noite. Míticas as nossas idas à disco. Uma vez até perdi um sapato que voou do pé a uma velocidade estonteante. Vezes sem conta, ao chegar a casa, saía do carro dele descalça pelas dores nos pés de horas e horas a dançar. Uma festa pós Globos de Ouro, nos tempos áureos da Kapital, ambos de traje de gala, e uma grande bebedeira. Rimo-nos tanto nessa noite, véspera de dia de trabalho. E as gargalhadas que demos durante o Titanic, o pior filme que tínhamos visto até então!!!

Ele terá sido a pessoa que mais me viu chorar. Amores não correspondidos, maus tratos laborais, abandono familiar, ou somente ser eu. E ele sempre presente, a dar-me força, ao seu jeito, que é o de limpar as lágrimas e respeitar um silêncio confortável. 

Quando o S. me deu uma cabeçada e eu sangrava na sala de aula, e sendo no entanto a pessoa mais calma, apenas pedi água. O Bêzinho ofereceu-se para ir comprar. E foi a correr. Quando voltou o cenário à minha volta era de catástrofe e no meio do stress, ele enervou-se de tal maneira que me bebeu a água toda. Uma vez, numa viagem a Coimbra, pedi que ele me guardasse um pedacinho da sandes que ele tinha ido comprar. E ele não deixou, porque esquece-se de tudo. Fiz-lhe uma fita. Na paragem seguinte comprou-me duas sandes e um sumo.

Só posso sentir amor por uma pessoa assim, certo? 

Ele entende como brilham os meus olhos quando passo na Louis Vuitton, sabe o representa a Chanel ou a Prada. Entende porque gosto de Milão. Partilha os brunchs e todas as outras maluquices que me saem da cabeça. 



Parabéns, meu querido Bê. Não só pelo 35º aniversário mas pela pessoa fabulosa que és. Pelo EXCELENTE amigo que te tornaste. Pelo exemplo de força e de amor à vida que nos dás no dia a dia. Pela coragem, alegria e capacidade de viver de sorriso aberto, disposto a fruir de tudo o que mereces. E mereces tudo.

És das melhores pessoas que existem. Tenho muito orgulho em ti, em que sejas meu amigo e no que conseguiste. És um ser feliz e isso faz toda a diferença.

Love You!!!! So much ...











Comentários

Mensagens populares deste blogue

Doidinha para lhes pôr a mão

I nverno em Madrid,  C. J. Sansom   1940.  Madrid encontra-se em ruínas, a fome e a miséria imperam, e uma turba de espiões das grandes potências mundiais invade a cidade, enquanto Franco pondera juntar-se a Hitler na Segunda Guerra Mundial. É nesse mundo de incertezas que desembarca Harry Brett, um ex-soldado recrutado pelos serviços secretos britânicos. A sua missão é descobrir se os negócios obscuros de um antigo companheiro de escola, Sandy Forsyth, envolvem uma reserva de ouro que fortalecerá o governo de Franco.  Entretanto, Barbara Clare, antiga enfermeira da Cruz Vermelha e namorada de Sandy, também se propõe a uma missão secreta: encontrar o ex-amante, Bernier Piper, amigo de Harry e comunista voluntário das Brigadas Internacionais desaparecido nos campos sangrentos da Batalha do Jarama. Quatro vidas cruzadas num jogo perigoso de amor e morte, os segredos e subterfúgios da Espanha de Franco, um romance que nos fala sobre a dificuldade de fazer escolhas nu...

Da perseguição

Será que te lembras de mim? Sempre que alguém se acerca, me consome num abraço pleno, me agarra o cabelo com sabedoria e se dirige aos lábios com a vontade de como se fosse a primeira vez. Será que pensas no meu toque? Quando outrem me roda com volúpia no amarrotado dos lençóis e me puxa para uma confusão de sentidos, intenso cheiro a corpos em batalha, arrepios, suor e gemidos. Será que sentes a ausência da minha presença? Sempre que me aninho no peito de outro para adormecer, já derrotada pelo peso das horas, das decisões, da intensidade da caminhada, da entrega no sexo, e só busco amparo para usufruir da minha solidão. Será que alguma vez vou escapar da perseguição da tua voz, da subtileza como me levantavas do sofá com malicia de quem se ia perder no quarto, da segurança do meu silêncio no teu?  Vou gostar de ti, sempre. Mesmo que todos prazeres do mundo se desenlacem à minha volta, mesmo que não tenhas de mim qualquer imagem, será que alguma vez tr...