Avançar para o conteúdo principal

Das certezas

Desde pequena (sim, como se tivesse crescido imensoooo...), que tenho duas grandes certezas: que sou do Benfica (always) e que não sou religiosa. Bom, naquela altura, não seria, de todo, católica, que era a única fé com a qual tinha contacto mais próximo.

Sempre me senti mal em igrejas. A solenidade eucaristical, o ambiente pesado, o silencio, o escuro, o respeito, o medo, o conteúdo discursivo, o cheiro a velas, a mofo, tudo me tirava o ar. Era o maior dos sacrifícios (pior que ir ao circo), era uma tortura, sentia-me verdadeiramente forçada a por um pé numa igreja, mesmo em visita. E esse sentimento durou muito tempo. Só em adulta consegui ser turista no reduto clerical.

E vá que desde antes dos 6 anos já boicotava as idas à missa como gente grande e ganhei uma aversão àquilo tudo de tal maneira que nem catequese, nem primeira comunhão.

Mantenho-me fiel agnóstica mas há dias em que penso que se não seria mais fácil ter a doçura da fé. Nela repousar a esperança e o lado positivo da vida. Nela encontrar o conforto de um melhor amanhã quando as coisas não têm o desfecho que queremos

Não pretendo mudar de opinião, mas assim, resta-me sofrer só em antecipação, sofrer quando tudo corre mal e saber que só posso contar comigo quando a desilusão se abate. O pragmatismo e o racional são algo solitários e pouco meigos nestes dias.

São as escolhas que nos justificam. Há que aceitá-las.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Doidinha para lhes pôr a mão

I nverno em Madrid,  C. J. Sansom   1940.  Madrid encontra-se em ruínas, a fome e a miséria imperam, e uma turba de espiões das grandes potências mundiais invade a cidade, enquanto Franco pondera juntar-se a Hitler na Segunda Guerra Mundial. É nesse mundo de incertezas que desembarca Harry Brett, um ex-soldado recrutado pelos serviços secretos britânicos. A sua missão é descobrir se os negócios obscuros de um antigo companheiro de escola, Sandy Forsyth, envolvem uma reserva de ouro que fortalecerá o governo de Franco.  Entretanto, Barbara Clare, antiga enfermeira da Cruz Vermelha e namorada de Sandy, também se propõe a uma missão secreta: encontrar o ex-amante, Bernier Piper, amigo de Harry e comunista voluntário das Brigadas Internacionais desaparecido nos campos sangrentos da Batalha do Jarama. Quatro vidas cruzadas num jogo perigoso de amor e morte, os segredos e subterfúgios da Espanha de Franco, um romance que nos fala sobre a dificuldade de fazer escolhas nu...

Dos elásticos

Para onde vão as sentimentos que desaparecem? Para o mesmo sítio que as meias e os batons do cieiro e os isqueiros? Onde derivam elásticos de cabelo e tampas de tupperwares? Saberão os seus hóspedes como os apagam quando partem? Memória reset?  Paira sobre nós um céu falso com correntes de sentimentos que se perderam sem que alguém os tentasse raptar, para os quais não houve esforço de resgate, e esse peso esmaga-nos, castiga-nos. Nega-nos que sintamos.  Porque maltratamos os sentimentos que abandonamos. É uma punição em perpétua retroalimentação.  Por isso não percebemos, escapamos à ausência de matéria que nos faz falta.

Do acosso

Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência.  O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas.  A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado. E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade.  A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.