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O homem que quer matar o passado (matando o país)

(será longo!)

Ken de Massamá, face ao cargo que exerce, e que escolheu exercer, no timing de crise reinante, escolheu também sujeitar-se ao escrutínio publico, perante escolhas difíceis a que é obrigado. 

Porém, também já não é surpresa que o próprio Pedro Miguel seja uma pessoa incapaz de ver mais além, de fazer uma ruptura e de, realmente, ter ideias construtivas. Havia dúvidas. Parece que sim. 

É suposto, pelo compromisso assumido com a Troika, que o PSD conhecia antes de ser Governo, e pelo cenário que o país vive, enquadrado no contexto europeu e mundial adverso, que exista uma politica de austeridade. E, convenhamos, ela fazia falta, em muitas áreas. Ao que parece, vai continuar a fazer. 

Pedro Miguel podia ter feito a diferença. Se fosse diferente. Se não fosse um banal individuo sem delta de genialidade (he wish!), nem sequer um nível de qualidade qualquer coisita de especial. Seria o retrato perfeito de um funcionário publico mediano daqueles que a vox populi não gosta e constrói os seus preconceitos. É um tipo que podia estar anos a olhar para dossiers básicos, a analisar, vá, numa qualquer repartição perdida num prédio cinzento de Lisboa. Sem que ninguém desse por ele. 

É um nobody, nascido para as pequenas coisas, que à custa de lobby e à falta de melhor, chegou a Primeiro Ministro. Num país que delira com a Casa dos Segredos, quem se pode surpreender?

O nosso critério de exigência é baixo. E, assim, temo o homo vulgaris em lugares críticos, em momentos que exigem grandes figuras mobilizadoras e capazes (vulgo, dotadas de capacidade). Saiu-nos o Ken e o Sr. Silva. Triste sina.

Pedro Silva decidiu matar o seu passado de classe média, de Massamá, dando cabo da classe média, em plena crise. Naquelas palavras da conferência de imprensa, poder-se-ia quase ler: "desapareçam". É a ela que a austeridade se dirige. É através dela que pára a economia. Coisa que o Primeiro Ministro, homem de visão curtinha, nem entende, nem lhe tocam campainhas, nem que lhe façam um desenho. 

Quem mantiver salários elevados, mantém poder de compra e quer os bens de luxo quer, no mínimo, os bens premium, não sofrerão um grande impacto, mas sobram os demais. A franja dos pobres, a engrossar, e a classe média, que se vai focar apenas no que é de primeira necessidade. Se a economia desacelera pela redução do consumo, os negócios retraem em definitivo, as lojas (de pequena e média dimensão) fecham, as grandes cadeias encerram unidades e param a expansão, as falências aumentam, o desemprego, em consequência, vai aumentar e haverá menor espaço para as empresas surgirem.  

Acresce que com a quebra de rendimentos, a classe média ver-se-á em dificuldade de dar resposta às suas obrigações mensais, quer sejam aquelas contratadas (muito) acima das suas posses quer aquelas que estavam em linha com um plano de vida razoavelmente bem pensado. 

Apesar da casa no subúrbio, da sardinhada na Manta Rota, das farófias, da necessidade em  mostrar-se como uma pessoa “normal”, PPC quer destruir a maioria que é como ele, a memória daquilo que foi e é.  E arrasta o pais atrás. 

Enquanto isso, tardam, adiam-se, se é que alguma vez aparecerão as medidas de austeridade contra o status quo despesista instalado, ao serviço do Estado. Pedro Miguel vendeu-se à classe a que pertenceu desde a Jota e aos interesses de todos os que o puxaram os cordéis para o eleger. 

Pedro Miguel não faz um ar abalado para comunicar o fim da acumulação de cargos públicos remunerados, da limitação das reformas para titulares de cargos públicos ou com a alteração, imediata, da aplicabilidade da reforma vitalícia a deputados com apenas 8 anos de serviço na AR. E restringir, ao máximo, a justificação do regime de faltas (inquirindo mesmo a validade dessas justificações muitas delas fraudulentas) dos deputados, e passando a descontar? Porque raio os deputados não podem ser analisados à lupa da produtividade? Já agora, cansa-me a moleirinha a ideia de que ser deputado é uma função tão "perna às costas" que possam haver tantos a acumular funções no privado. Acabava-se com isso, também. Porque se é assim tão fácil o cargo, reduza-se o numero de detentores. Não vale a pena estarem lá tantos. Inúteis, no mínimo.

Com estas medidas, até se podia registar uma poupança significativa, mas não sejamos inocentes. Seria, no imediato, uma gota de água. Ok. Não obstante, os ganhos são enormes. Desde logo, moralmente ganharíamos vergonha na cara. E repor-se-ia um principio de justiça,  pois via-se austeridade a entrar transversalmente em todas as "casas". A médio e longo prazo, os resultados da poupança teriam efeito. E todos estariam a contribuir, não apenas alguns. Os do costume. 

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