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No maravilhoso mundo das actas

Durante 12 anos trabalhei no sector privado. Vi com cada coisinha mais mete nojo, que valha Santa Prada. Entre candidatos, em processos de recrutamento, que mentiam com a descontracção de uma prostituta "batida" (nem sempre detectados à primeira); e clientes que ora mudavam de ideias e "esqueciam-se" de avisar, ora não contavam a história toda (levando as pessoas ao engano), ora queriam contratar alguém para lixar quem já estava na empresa, ora não pagavam ou, o mais catita de tudo, passavam por mim na rua, num restaurante, numa loja e ostensivamente fingiam que não me conheciam; foi um fartote.
Houve várias (boas) excepções, mas grosso modo, tudo gentinha do melhor. Com altos cargos, bons salários, MBA's em escolas com propinas iguais ao valor de uma casa, exigências ao nível de requisitos como "delta de genialidade". Mas com muita falta de educação e de respeito pelos outros e muita filha-da-putice.
Não obstante, e apesar das urgências pára-tudo que depois, afinal, se transformavam em contínuos adiamentos, nada se compara à burocracia em ritmo de morte lenta e agonizante quando se lida com entidades publicas ou subsidiadas por instituições publicas.
Ao ter algum contacto com esta dinâmica (expressão inapropriada!) há dias em que me dá vontade de chorar. Pelo tempo que se perde. A construir pequenos nadas!
A linguagem de um simples documento ou de um email pode ser mais complexa que a prosa de um acórdão judicial. Para qualquer coisa é necessário um formulário, um requerimento, um fluxograma, um atestado, uma certidão. Dado que somos pessoas pouco perfeccionistas, nunca nada fica bem preenchido à primeira, logo torna a fazer. E actas! Muitas actas. Muitas é bom! Sinal de que houve muitas reuniões e tudinho fica registado.
Quem convive neste circuito fala de forma própria. Séria, literal e com um grau de flexibilidade assustador. Racionalizar, optimizar, capacidade de síntese, pragmatismo e assertividade são conceitos do lado das trevas.
Como em tudo, e como sempre afirmo, a generalização é um ponto de partida perigoso. Amen-aleluia-praythelord pelas pessoas que andam fora da caixa. Que  não esmorecem perante a cultura do ofício e da acta. Que tentam de facto dar outro andamento à coisa. E que não gostam de construir piramides de papeis, organizados em 30 mil "micas".
Num pais a precisar que se tomem decisões e se aja rapidamente (com discernimento) este modus operandi dá-me cabo do piston.

Comentários

Patricia Assis disse…
Concordo plenamente! Boa descrição do que se passa.
Para tudo é preciso tudo! E se falta 1/100, o processo quase que tem que começar do inicio.

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