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a mão na barriga

"Gravidez não é doença." Sentada no rebordo da banheira, abraçada sobre si mesma, repetia em silencio, "gravidez não é doença". Nua, mal se notavam os 4 meses de gestação. Ganhara apenas mais peito. Aos amigos dizia que eram soutiens extra compensados. 

Só os pais sabiam. Tinha 30 anos, ficara viúva precocemente aos 24 e esta surpresa do acaso, que a apanhara desprevenida, levava-a de novo ao êxtase e aos pais tinha trazido uma alegria sem fim. 

Lá dentro, um estranho, recém conhecido, dormia sossegado depois de uma noite de copos e sexo. Apesar de tudo, controlou-se no álcool mas abusou do sexo. 

Quando descobrira a gravidez, o namorado, um gerente bancário insuspeito, fanático pelo ginásio, com quem partilhava casa e estabilidade há quase um ano, achou que era o melhor momento para uma pausa. Afinal, não gostava assim tanto dela, apesar das promessas e dos planos e dos almoços em família. 

Tinha ficado na casa onde antes vivera com o marido, perto dos pais, e o pai da criança voltou para a sua própria casa, 5 ruas abaixo. Há mais de dois meses que não se viam. Assumiu a gravidez e não queria companhia na aventura.

Não conseguia, no entanto, resistir às escapadas para o apartamento de Lisboa. Inventava jantares ou trabalho, para tranquilizar os pais, e seguia para a farra como haviam sido os anos antes de conhecer o bancário-que-afinal-não-valia-ponta-de-um-corno. 

Prometia que ia ser só arejar, beber um café, mas as horas sucediam-se e o corpo pedia adrenalina, pedia para ir dançar all night long, tirar fotografias com os amigos nos decks ao ar livre como se fossem adolescentes. 

Amava aquele filho de forma intensa. Tinha chegado a marcar uma consulta pré aborto mas desistiu horas antes. Para quê? Queria ter sido mãe quando fora casada, os pais estavam loucos de alegria, a única filha, o primeiro neto. Ia ter empregada a tempo inteiro e toda a ajuda da família. Ia ser feliz. 

Mesmo assim, o desassossego consumia-a às sextas feiras à noite. Gostava da escuridão das discotecas, de ter um copo na mão, sentir-se olhada, desejada. Achava piada ao flirt e mais ainda ao engate, puro e duro, de olhos nos olhos, a pedir cama. Para quê fugir? Sentia-se reconhecida, apreciada quando tinha o poder na mão. Polegar para cima? Ou para baixo? A tua casa ou a minha? Quando os fazia gemer! Nem se lembrava que estava grávida. Passava para outro lado, sensorialmente inverso ao estar no sofá a planear o quarto do bebé ou a lista de nomes possíveis. 

Agora que o estranho já havia encontrado a porta da rua e tinha saído sozinho, aliviada pelo abandono da casa, viu-se ao espelho. A barriga havia de, a qualquer momento, passar de uma sombra redonda, ténue, para a sua inteira pujança. 

Ia ser uma gravida linda, inquestionável. E à medida que a maternidade se fosse evidenciando, esperava que menos sentisse aquele pulsar para o pause-still, aquela voracidade por mais uma noite, mais uma festa, mais qualquer coisa. 

Não fizera o luto pelo marido. Não fizera o luto pelo namorado que, literalmente, a abandonara grávida e descalça. A infelicidade não lhe tocava. Sentia-se imune à tristeza. Vivia-se uma vez. Única. Intensa. Inesquecível. As consequências ajustar-se-iam com os anos. 


Aquele bebé ia ter uma vida sem igual. Talvez não a deixasse. Como os outros. 

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