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Mensagens

Do acosso

Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência. O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas. 
A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado.
E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade. 
A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.
Mensagens recentes

Das pequenas coisas

Talvez sejam as pequenas coisas. Como uma música que se ouve por acaso e se torna uma descoberta que nos marca um trânsito. Como um gelado fora de horas e com o sabor simplesmente certo de caramelo tal qual na nossa infância. Como aquele instante rápido entre fazer-nos à onda e o mar que nos toma por completo, nos restitui a energia e nos devolve ao mundo.
Terão que ser as pequenas coisas. A partir delas, tudo se enreda e o equilibro pesa para o complicado. Sinuosos os caminhos para que nos encontremos. Doloroso o andamento que faz que nos afastemos mais do que estejamos próximos mesmo quando tudo aponta para que haja uma cumplicidade e uma ligação súbita mas forte e consistente.
O toque é denunciador. Desmantela as forças e faz sucumbir com tamanho ardor. O beijo que transporta silêncio, paz, meta. O abraço que acolhe uma gargalhada e o estranho sentido de que tudo está bem.
São estas pequenas coisas. Que são fáceis e leves e perenes. Tão frágeis. Acabam tão depressa. Nada há-de ser …

Dos factos reais

Os anos, as histórias, as cicatrizes, as tatuagens, as noites ébrias, o acordar sóbrio, as dores, a dança descontrolada de emoções. 
O orgulho, a entrega, a força, a paixão, a cegueira, o racional que cede ao mais descabido improvável. A raiva, o amor, a dúvida, a euforia, a esperança, o desmoronar. 
O fugaz, o consumo rápido e descartável, o compromisso, o receio, a expectativa. A impaciência, a intolerância, a falta de vontade de começar do zero. 
O desejo, a avidez, a imperfeição pautada por gargalhadas, a tesão em gotas de suor e olhos famintos. 
A partilha, a distância, o querer tanto e tanto calar, a explosão arrebatada, a plenitude. 
A tempestade, a tristeza, o vazio. O querer estar só, a solidão, a ânsia pelo abraço silencioso. 
Os beijos que são tudo, os beijos estranhos de rostos que nem lembramos. 
A auto punição, sensação de mais um erro, a pulsão do falhanço, o sintoma do irreparável. A certeza de que fazemos tudo mal. 
É uma construção. São anos. É uma fome. Textos largos que va…

Dos caminhantes em viagem

Sou céptica. Descrente. Quase cínica. Não vislumbro finais felizes. Não acredito num local que me faça aninhar, me dê suporte, me afague, escute, entenda as discrepâncias dos meus vários tons, das minhas mudanças de espirito qual meteorologia dos Açores. Ainda que receptiva a novos mundos, dificilmente a falta de fé é recomposta depois de tanta erosão emocional. 
E, no entanto, há momentos que nos fazem pensar. Murros no estomago. De pensar, entramos em espiral quase obsessiva em torno de algo que pode ser irrelevante. Porque nos tocou, nos fez acordar da letargia, porque põe tudo em perspectiva mesmo no mais frio dos ecossistemas. 
Pessoas com lucidez, com coragem, com capacidade para amar uma mulher, querê-la, lutar por ela e pela oportunidade de a valorizar , de a elevar, de a envolver num longo abraço que a fortalece, protege, a motive a ir mais além com uma mão que a ampara e a celebra. Parece impossível, certo? Irreal? Inconcebível?  Sei que não acredito. Que apenas me resta esper…

Das hipóteses únicas

Não consigo voltar a ela. As portas fecharam-se no momento em que nos seus olhos baixou uma nuvem de decepção e mágoa e raiva. Não posso voltar a ela, a uma trovoada de dia de verão, forte, com chuva incessante. Raios pelos céus que quebram o calor que se cola à pele, que destabilizam a placidez e levam tudo à frente numa enxurrada de libertação. 
Ela não permite segundas hipóteses- Conquista-se a primeira a pulso, com persistência, resistindo às rasteiras e sobrevivendo aos golpes, até ela permitir desmantelar as estratégias de defesa numa brecha de confiança. Irrompe, então, uma entrega intensa, uma dádiva de desejo e cumplicidade, de proximidade e conforto. Como um dia nos Açores, ora pleno de sol, ora onde se abate a tempestade, ora no mais pacifico silencio verde, ora na batalha das ondas atlânticas.
Quando puxei o tapete, ela não caiu. Não perdeu o equilíbrio e, apesar do suave balouçar, manteve-se firme, olhar gélido, transmutado. Prova de alguém que já abanou tantas vezes sob o …

Do acordar para a realidade

via Gentleman Modern

Perguntam como posso ser tão descrente. Questiono-me como pode alguém ainda acreditar, pelo menos de forma segura e inequívoca. Intrínseca.
É uma roleta russa. Não é por querermos muito, por nos acharmos dignos, ou pela ilusão de que todos estamos destinados. Nada está garantido. O que subsiste pode sobreviver apenas à luz da acomodação e do hábito. Onde reina o nada não há uma verdadeira lei que dite que tem que passar a existir algo.
Não há poções, não há alquimia, não há combustão secreta. Não há trovões que rasgam os céus e despejam a resposta no chão molhado, gasto.
Quem dita que somos mais por sermos com outro? Qualquer pessoa ou momento nos aporta riqueza e valor acrescido mas a obsessão por não estar só é uma patologia social que deixamos que os outros nos impinjam e nos façam sentir manipulados com charme suave, cercados pela comiseração, pela necessidade, convictos que estamos a falhar mas de longe ser culpa nossa. Ainda que...
Desaprendemos o valor do silênc…

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…