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Mensagens

Dos factos reais

Os anos, as histórias, as cicatrizes, as tatuagens, as noites ébrias, o acordar sóbrio, as dores, a dança descontrolada de emoções. 
O orgulho, a entrega, a força, a paixão, a cegueira, o racional que cede ao mais descabido improvável. A raiva, o amor, a dúvida, a euforia, a esperança, o desmoronar. 
O fugaz, o consumo rápido e descartável, o compromisso, o receio, a expectativa. A impaciência, a intolerância, a falta de vontade de começar do zero. 
O desejo, a avidez, a imperfeição pautada por gargalhadas, a tesão em gotas de suor e olhos famintos. 
A partilha, a distância, o querer tanto e tanto calar, a explosão arrebatada, a plenitude. 
A tempestade, a tristeza, o vazio. O querer estar só, a solidão, a ânsia pelo abraço silencioso. 
Os beijos que são tudo, os beijos estranhos de rostos que nem lembramos. 
A auto punição, sensação de mais um erro, a pulsão do falhanço, o sintoma do irreparável. A certeza de que fazemos tudo mal. 
É uma construção. São anos. É uma fome. Textos largos que va…
Mensagens recentes

Dos caminhantes em viagem

Sou céptica. Descrente. Quase cínica. Não vislumbro finais felizes. Não acredito num local que me faça aninhar, me dê suporte, me afague, escute, entenda as discrepâncias dos meus vários tons, das minhas mudanças de espirito qual meteorologia dos Açores. Ainda que receptiva a novos mundos, dificilmente a falta de fé é recomposta depois de tanta erosão emocional. 
E, no entanto, há momentos que nos fazem pensar. Murros no estomago. De pensar, entramos em espiral quase obsessiva em torno de algo que pode ser irrelevante. Porque nos tocou, nos fez acordar da letargia, porque põe tudo em perspectiva mesmo no mais frio dos ecossistemas. 
Pessoas com lucidez, com coragem, com capacidade para amar uma mulher, querê-la, lutar por ela e pela oportunidade de a valorizar , de a elevar, de a envolver num longo abraço que a fortalece, protege, a motive a ir mais além com uma mão que a ampara e a celebra. Parece impossível, certo? Irreal? Inconcebível?  Sei que não acredito. Que apenas me resta esper…

Das hipóteses únicas

Não consigo voltar a ela. As portas fecharam-se no momento em que nos seus olhos baixou uma nuvem de decepção e mágoa e raiva. Não posso voltar a ela, a uma trovoada de dia de verão, forte, com chuva incessante. Raios pelos céus que quebram o calor que se cola à pele, que destabilizam a placidez e levam tudo à frente numa enxurrada de libertação. 
Ela não permite segundas hipóteses- Conquista-se a primeira a pulso, com persistência, resistindo às rasteiras e sobrevivendo aos golpes, até ela permitir desmantelar as estratégias de defesa numa brecha de confiança. Irrompe, então, uma entrega intensa, uma dádiva de desejo e cumplicidade, de proximidade e conforto. Como um dia nos Açores, ora pleno de sol, ora onde se abate a tempestade, ora no mais pacifico silencio verde, ora na batalha das ondas atlânticas.
Quando puxei o tapete, ela não caiu. Não perdeu o equilíbrio e, apesar do suave balouçar, manteve-se firme, olhar gélido, transmutado. Prova de alguém que já abanou tantas vezes sob o …

Do acordar para a realidade

via Gentleman Modern

Perguntam como posso ser tão descrente. Questiono-me como pode alguém ainda acreditar, pelo menos de forma segura e inequívoca. Intrínseca.
É uma roleta russa. Não é por querermos muito, por nos acharmos dignos, ou pela ilusão de que todos estamos destinados. Nada está garantido. O que subsiste pode sobreviver apenas à luz da acomodação e do hábito. Onde reina o nada não há uma verdadeira lei que dite que tem que passar a existir algo.
Não há poções, não há alquimia, não há combustão secreta. Não há trovões que rasgam os céus e despejam a resposta no chão molhado, gasto.
Quem dita que somos mais por sermos com outro? Qualquer pessoa ou momento nos aporta riqueza e valor acrescido mas a obsessão por não estar só é uma patologia social que deixamos que os outros nos impinjam e nos façam sentir manipulados com charme suave, cercados pela comiseração, pela necessidade, convictos que estamos a falhar mas de longe ser culpa nossa. Ainda que...
Desaprendemos o valor do silênc…

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…

Dos idos de Fevereiro

Eram os cabelos que desciam pelo tronco em forma de S, contorcendo-se em sintonia com o corpo dela que pairava sobre o seu, até acordá-lo do seu torpor fascinado, com as pontas do cabelo a chicoteá-lo apenas com um manear de cabeça solto e determinado.
Era o modo como ela derrapava sobre ele, subtilmente mas com certeza, lhe segurava os pulsos enquanto lhe apertava as pernas pela cintura, e aninhava devagar, aos poucos, os dedos nos dedos dele, repousando mão contra mão à medida que lhe dava acesso a ela.
E ele ganhava-a; por momentos o controlo mudava de dono quando ela vagueava livre, totalmente entregue ao vazio do prazer. Nada mais interessava. O beijo poderoso dele trazia-a à realidade, o domínio dele nela mergulhava-a noutro remoinho e  ela rodopiava nos lençóis com determinação, força e gemidos.
Mas o tom, esse era pautado por ela. Pela resposta despudorada, o calor que se lhe soltava do corpo a pulsar, o gostar sem vergonha do cheiro, do barulho, do suor. Acelerava-o. Deixava-o s…

Do segredo que destruiu

Todos temos segredos. Alguns nem sequer pensamos neles de tão recôndita é a sua existência na nossa profundeza e silenciosa obscuridão. 
Outros são pedaços avulso da nossa vida, lembranças que foram ficando de momentos em que libertámos energia. São nossos. Podemos ter partilhado com outros mas o impacto, o abalo, a satisfação, a penitência, o peso desse histórico é apenas nosso e de mais ninguém.
Há sempre um segredo que tem mais força sobre nós. Que nos esmaga o discernimento, a respiração, pelo qual questionamos tudo, onde vamos, se abandonamos tudo, se corremos riscos ou ficamos inertes no que é nossa realidade.
O meu segredo és tu. Toda a revolta que um dia minaste em mim, as sucessivas vagas de insatisfação que deste azo, a incapacidade de sentir com a mesma força, entrega, inocência, e imensa habilidade de acreditar, natural.
Contigo destruí tanto em mim. A imediatez cresceu para o calculismo. O brilho afectuoso foi ultrapassado pela pérfida da tesão. Crer passou a desprendimento. …