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Do que não é suficiente

São os abraços quentes, ternos e que permitem rendição. São os beijos inesperados, fortes em tremor, desejo confessado ali mesmo, sentimento de pertença no sítio e hora certos, um sabor que escalda no mais profundo do nosso interior. São mãos sabidas que percorrem as costas com dolência e sentimento de protecção. 
É um conforto que embala, que ampara, que anula a ânsia que consome. É bom. É suave e explosivo. É calma e pressa. É desfrutar e consumir avidamente.
E porque não é suficiente? E porque não nos deixamos ir em prazer e em queda livre sabendo que vamos aterrar e tudo fica bem mesmo que possamos esfolar um joelho? Porque se viram as costas, se negam as pessoas, se ignoram os toques de pele e o suor nas almofadas? Porque escasseia o tempo e sobram as razões para o "não"? Para onde vai a vontade, a paz do abraço, a magia do beijo, a antecipação de mão na mão? 
Fodemos mais a nossa alma do que os nossos corpos.
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Do apenas eu

Se fosse um elemento, que fora vento para correr veloz, fustigar as alamedas não lineares que me pautam sem as tentar acalmar.
Se fosse um animal, que fora cavalo, solto, selvagem, dócil para alguns, indomável para todos os demais.
Se fosse uma cor, que fora de um azul exuberante, profundo, indecifrável, intenso.
Se fosse objecto, que fora uma caneta sem limite de tinta para que nenhuma palavra, nenhum pensamento, nenhuma dor, nenhuma alegria ficassem perdidos sem repousar num papel.

Sendo eu, e apenas eu, velocidade, inquietação, fervor e criação coexistem em caos, ora mais aceso ora mais em recluso, mas em mim, só para mim, por mim.

Da dor indizivel

Somos profetas da dor indizível. Receamos que se a desenharmos com contornos ela ganhe vincos abrasivos de giz a raspar na ardósia. Cortará ainda mais o que já de si nos foi sulcando a pele curtida pela imprevisibilidade, pelo cansaço, pela temperança que não desejamos. 

Somos escrivas de olhares que pedem muito em troco do mesmo nada, encostados a doses finitas de emoção e sorrisos que apenas se abrem.
Grassa em nós a exaustão onde pulsa a vontade, o desalinho, a ausência de um sol apaziguador de quem anda em tempos desencontrados.

Da chama rápida

Somos tão breves. Leves. Apenas momentos. Insistimos em transportar peso. Tensão. Desnecessário. 
Não controlamos, de facto, tudo. Ou alguma coisa. Há sempre algo que queremos que não vamos ter. Por muito que o desejemos, que o desenhemos na nossa mente como uma ilustração com cheiro, com sons roucos, com suor, com arrepios de prazer. A realidade, por si, e para nos relativizar, é feita de uma malha tecida com anos, com entregas, com construção cuidada, com os desígnios do que é uma edificação, as aspirações do que é a história de alguém. 
E somos um flash. Uma carruagem de metro em alta velocidade que se acerca da plataforma, abre as portas para toda uma nova viagem, e a aventura que queremos não começa ali. O metro segue. Fomos apenas uma paragem no terminal, não houve quem entrasse.
Vale a pena esperar por mais? Complicar? Sentir?
Somos instantes. Para quê a fogosidade, se no segundo seguinte acabou o que nunca houve? Para quê a intensidade quando não há impulso para mais? Tanta paixão…

Da perseguição

Será que te lembras de mim? Sempre que alguém se acerca, me consome num abraço pleno, me agarra o cabelo com sabedoria e se dirige aos lábios com a vontade de como se fosse a primeira vez.
Será que pensas no meu toque? Quando outrem me roda com volúpia no amarrotado dos lençóis e me puxa para uma confusão de sentidos, intenso cheiro a corpos em batalha, arrepios, suor e gemidos.
Será que sentes a ausência da minha presença? Sempre que me aninho no peito de outro para adormecer, já derrotada pelo peso das horas, das decisões, da intensidade da caminhada, da entrega no sexo, e só busco amparo para usufruir da minha solidão.
Será que alguma vez vou escapar da perseguição da tua voz, da subtileza como me levantavas do sofá com malicia de quem se ia perder no quarto, da segurança do meu silêncio no teu? 
Vou gostar de ti, sempre. Mesmo que todos prazeres do mundo se desenlacem à minha volta, mesmo que não tenhas de mim qualquer imagem, será que alguma vez trocarei todas as emoções gentis que outr…

Do sorriso assassino

O sorriso assassino que me faz regressar para mais. Para outra reviravolta do que sou e para o estremecer das convicções, postas a nu pelo olhar destemido com que enfrentas esta dureza minha. 
E caímos numa cama suspensa, sem tempo, sem palavras que nos liguem ao mundo real, à média luz porque somos um jogo de sombras. Não destróis o meu escudo mas invades a minha pele. Não me desmantelas mas as peças combinam melhor contigo. 
Fujo, puxas-me. Quero, não dás. Doce guerra de forças, ironia de semblante silencioso, queda afectuosa no teu sorriso que me mata.

Não vás

Não vás, não desistas a meio do caminho porque a estrada não adere sempre do modo que esperas aos teus passos. O sinuoso caminho dá-nos o sentido de que que vivemos e traz-me mais próximo da tua inquietude. 
Não vás, não traves a vontade. Deixa-me dar-te palco para que te esgotes nos meus braços. Dá-me um lençol branco como tela vazia na qual pinto a minha insanidade como penas que caem num som que mais ninguém ouve. 
Não vás, mas sim sussurra em várias matizes de cor o que nos desperta. 
Não vás, aqui dentro acertamos a dança.