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Mensagens

A mostrar mensagens de 2018

Das hipóteses únicas

Não consigo voltar a ela. As portas fecharam-se no momento em que nos seus olhos baixou uma nuvem de decepção e mágoa e raiva. Não posso voltar a ela, a uma trovoada de dia de verão, forte, com chuva incessante. Raios pelos céus que quebram o calor que se cola à pele, que destabilizam a placidez e levam tudo à frente numa enxurrada de libertação. 
Ela não permite segundas hipóteses- Conquista-se a primeira a pulso, com persistência, resistindo às rasteiras e sobrevivendo aos golpes, até ela permitir desmantelar as estratégias de defesa numa brecha de confiança. Irrompe, então, uma entrega intensa, uma dádiva de desejo e cumplicidade, de proximidade e conforto. Como um dia nos Açores, ora pleno de sol, ora onde se abate a tempestade, ora no mais pacifico silencio verde, ora na batalha das ondas atlânticas.
Quando puxei o tapete, ela não caiu. Não perdeu o equilíbrio e, apesar do suave balouçar, manteve-se firme, olhar gélido, transmutado. Prova de alguém que já abanou tantas vezes sob o …

Do acordar para a realidade

via Gentleman Modern

Perguntam como posso ser tão descrente. Questiono-me como pode alguém ainda acreditar, pelo menos de forma segura e inequívoca. Intrínseca.
É uma roleta russa. Não é por querermos muito, por nos acharmos dignos, ou pela ilusão de que todos estamos destinados. Nada está garantido. O que subsiste pode sobreviver apenas à luz da acomodação e do hábito. Onde reina o nada não há uma verdadeira lei que dite que tem que passar a existir algo.
Não há poções, não há alquimia, não há combustão secreta. Não há trovões que rasgam os céus e despejam a resposta no chão molhado, gasto.
Quem dita que somos mais por sermos com outro? Qualquer pessoa ou momento nos aporta riqueza e valor acrescido mas a obsessão por não estar só é uma patologia social que deixamos que os outros nos impinjam e nos façam sentir manipulados com charme suave, cercados pela comiseração, pela necessidade, convictos que estamos a falhar mas de longe ser culpa nossa. Ainda que...
Desaprendemos o valor do silênc…

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…

Dos idos de Fevereiro

Eram os cabelos que desciam pelo tronco em forma de S, contorcendo-se em sintonia com o corpo dela que pairava sobre o seu, até acordá-lo do seu torpor fascinado, com as pontas do cabelo a chicoteá-lo apenas com um manear de cabeça solto e determinado.
Era o modo como ela derrapava sobre ele, subtilmente mas com certeza, lhe segurava os pulsos enquanto lhe apertava as pernas pela cintura, e aninhava devagar, aos poucos, os dedos nos dedos dele, repousando mão contra mão à medida que lhe dava acesso a ela.
E ele ganhava-a; por momentos o controlo mudava de dono quando ela vagueava livre, totalmente entregue ao vazio do prazer. Nada mais interessava. O beijo poderoso dele trazia-a à realidade, o domínio dele nela mergulhava-a noutro remoinho e  ela rodopiava nos lençóis com determinação, força e gemidos.
Mas o tom, esse era pautado por ela. Pela resposta despudorada, o calor que se lhe soltava do corpo a pulsar, o gostar sem vergonha do cheiro, do barulho, do suor. Acelerava-o. Deixava-o s…

Do segredo que destruiu

Todos temos segredos. Alguns nem sequer pensamos neles de tão recôndita é a sua existência na nossa profundeza e silenciosa obscuridão. 
Outros são pedaços avulso da nossa vida, lembranças que foram ficando de momentos em que libertámos energia. São nossos. Podemos ter partilhado com outros mas o impacto, o abalo, a satisfação, a penitência, o peso desse histórico é apenas nosso e de mais ninguém.
Há sempre um segredo que tem mais força sobre nós. Que nos esmaga o discernimento, a respiração, pelo qual questionamos tudo, onde vamos, se abandonamos tudo, se corremos riscos ou ficamos inertes no que é nossa realidade.
O meu segredo és tu. Toda a revolta que um dia minaste em mim, as sucessivas vagas de insatisfação que deste azo, a incapacidade de sentir com a mesma força, entrega, inocência, e imensa habilidade de acreditar, natural.
Contigo destruí tanto em mim. A imediatez cresceu para o calculismo. O brilho afectuoso foi ultrapassado pela pérfida da tesão. Crer passou a desprendimento. …

Do arrebatamento

O vestido caiu facilmente. Estava apenas preso pelas alças nos ombros magros e deslizou com vontade declarada pelo corpo, até ao chão, enquanto ela acendia uma única luz de presença.

Beijou-lhe o ventre. Sentiu-o a tremer. Antecipação. Expectativa. Sentia-lhe o calor sem sequer tocar. Era como uma fonte inesgotável de desejo prestes a desmoronar-se com um toque. Os dedos enfiaram-se entre a pele e a linha das cuecas de renda fazendo-as sair com mestria. Estava liberta, da máscara de tecidos, não das demais camadas de protecção. Tal não a impedia de arfar baixinho e com satisfação sob um rosto que perdia vergonha a cada caída da cabeça para trás.


Nua, encostada à parede fria, costas arqueadas, totalmente exposta viu-a a desmontar-se com cuidado ao primeiro beijo que se colou à boca como dali não houvera saída. Era intenso, forte, penetrante o modo como ela o arrastava para si com a língua e uma perna em torno da cintura.


Todo aquele momento era primário, selvagem, sem travões ainda que, e…

Missing you, missing us

I miss talking to you. Miss you making me laugh. Miss you touching me. Miss kissing you. Miss having you turning me on even at a distance. 
Miss feeling dirty, horny, and close to you. Miss the random conversations. Miss falling asleep in your arms and running from you in the rain. 
I miss been held strongly and devoured intensely. Miss having you in me, being torned while moaning, sweating without guilt. I miss being thrown in bed as a light feather and just lose conscience about everything else except you, your eyes always making me feel naked, your hands in all of me without shame.
I miss scream in pleasure and fall lost, silence, satisfied and wanting more and more. I miss the way you leave me abandoned to myself as I come with no holding back and feeling your smell.

I miss you.

Um dia

Um dia estávamos deitados num jardim, numa tarde fria de muito sol, de mãos dadas e calados. Folhas de inverno suportavam a nossa proximidade. E ali residia um dia de felicidade. Sentia tremenda exaltação que atirei para o recyclebin emocional a sensação de fractura prestes a acontecer.
E devia ser assim que continuávamos. Pelo meio das tormentas e do céu azul. Dos ajustes conscientes, da intensidade tornada suave, da paixão que rompia a pele em cada investida dos corpos, arrebatados e suados. Desejo que não cessava. A descoberta do outro. O hábito do outro sem rotina.
Mas nenhum amor dura para sempre. Há os que sobrevivem ao desgaste do tempo e solidificam em algo muito maior, uma ternura que se cruza com a proximidade dos anos. Há os que morrem por si de modo simples e singular, quase ameno mesmo que com a nostalgia do que se perde. Há os que se interrompem com brutalidade e a dureza de uma pancada inesperada, uma insónia sem fim, a falta de ar num ataque de ansiedade.

Desligaste-o da …

Da guerrilha

Ninguém apostava em nós. Somos o cavalo perdedor com boa pinta mas com todo potencial de desastre.
Até nós não estávamos cientes da onda que nos ia assolar. Nem tínhamos muita noção que existíamos um para o outro. Convivíamos, inquietávamo-nos, desafiávamo-nos, provocávamos guerrilha entre dois cérebros rápidos e respostas matreiras. Somos da mesma massa, saborosa, mas difícil de moldar a qualquer recipiente. Questionámos toda a doutrina de que os opostos atraem-se e geram o equilíbrio. Um erro. O balanço que esse quadro afina vai esconder os desejos mais arrivistas, ou mais tranquilos, de pessoas cujo ritmo se torna a cada dia mais distante. Alguma chama se extingue pelas circunstâncias. Alguém morre enredado na rotina.
Somos ambos indomáveis e soltos, espontâneos e prontos a ir. Não interessa onde. A experimentar. Algo novo. A ter curiosidade sobre tudo desde o mais banal e pouco perceptível ao mais grandioso e óbvio. A olhar com profundidade quase letal os outros e não ter misericórd…

Das razões

Quero-te pela desarrumação incompreensível que somos. Quero-te pela forma como me procuras à noite na cama, ainda a dormir, de modo instintivo, apenas para te recostares do mundo e amaciares no meu calor. Quero-te (tanto) quando sais do mar, feliz e salgado, qual criança livre agarrado à prancha como se fosse o teu bem mais precioso, a tua melhor amiga, a porta para o teu refúgio. Quero-te pelos beijos inesperados, lentos, que invadem qual descarga eléctrica, e afirmam sem hesitações desejo e amor. Quero-te pela forma como te afundas num livro e tudo à volta entra em pause-still e, mesmo assim, de repente tocas-me no joelho, no cabelo, dás-me a mão. Quero-te porque sei que acreditas em mim e não me questionas, crês que posso mudar o mundo. Quero-te pela tesão, confiança, cumplicidade e pelas saudades que temos, ainda, sempre, um do outro. Quero-te por te rires quando começo a cantar músicas que gosto e ouço a tocar, esteja onde esteja. Quero-te por dançarmos na rua se preciso entre ga…

I shine

Kiss me before you break my heart. There is still room to be damaged for every breath I take on myself and for myself. I regain confidence on me on every touch of you, even those that will be lost. 
The shivers running down on my spine awaken me and allow me to make you feel stronger, bolder, in love with life. 
I expand my senses while you will torn my world apart. We are under the same sky but I am meant to be a trail of light rather than a guiding star. 
I will burn your soul and you will break my heart. Yet I shine. So, kiss me and let's pretend.

Do despeito

De repente, de forma violenta e árida e dolorosa, senti a tua falta.
Terá sido a música que tocou inusitadamente no jantar e que me lembrou noites de chuva no teu corpo ávido por ser possuído? Terá sido a piada que a rapariga desconhecida contou à mesa e que me recordou o teu sentido de humor acutilante e directo ao osso? Terá sido o perfume que alguém deixou no ar quando passou na sala e me levou aos momentos em que encostado a ti aspirava o teu cheiro cruzado com os aromas que escondias por ti, ansiando beijos?
Despertei de modo abrupto para a tua ausência. Naquele instante queria-te ali, ver-te passar com sorriso irónico e saber-te minha. Ter noção que estavas atenta a mim por muito que parecesses focada em tantas outras coisas. Passares a mão descontraidamente pela minha com promessas de desejo mal contido, de luxúria a dançar atrevida nos olhos, de conversar até raiar do sol contigo encostada a mim.
E, não, não estavas ali. Nem estarás quando chegar a casa, para me abraçares sem per…

Da nova casa

As paredes estavam brancas e toda casa cheirava a tinta fresca. Já não havia restos dos aromas das suas velas constantemente acesas nem dos móveis estilo retro cheios de livros e revistas. O apartamento estava totalmente vazio. Não restava nada do que fora naqueles últimos anos, o último reduto do seu mundo. Ali ficavam no chão de tábuas de madeira todas as incertezas, angústias, caminhadas solitárias, gargalhadas, noitadas de copos, conversas.
Nunca tinha pensado que voltaria a mudar. Era mais um processo de abandonar. Quase não levava nada consigo. Fechava um ciclo, vendeu o mobiliário, não tinha nada mais para colocar lá, despojou-se de roupas que estavam demasiado apertadas para os saltos que iria dar dali em diante, dos quais tinha saudades por antecipação.
Resumiu a sua vida ao mínimo pois estava cheia de futuro. As ruas estavam barulhentas e movimentadas ao mesmo ritmo que a sua mente por oposição à sua calma. Aguardara tanto tempo por um dia assim mas vivia-o com total entrega e…

Das escapadas descomplexadas

Às vezes precisamos de fugir. 
De pegar no que nos atormenta, atirar para o cesto da roupa suja, pegar num saco e correr leve, vazio de expectativas e cantos seguros, em direcção a outro lado do mundo. 
Buscar isolamento no meio de tantos, silencio por entre gargalhadas mas um silêncio nosso, no qual tudo o que nos retira o ar é abafado.

Escapar sem complexos, libertar a carga, descansar os ombros do peso e, literalmente, não fazer nada para além de sentir que nos querem, que encaixamos, que não é necessário um esforço doloroso e que todos os palavrões são bem-vindos.

Naked touch

By early morning, a cosy silence comforts me through the cigar smoke, the coffee in the air and the the flash of your arms around me supporting my craving. 

A happy bliss in spite the cold. The scent of lovers in the wool cover. A smile. Soul extasy state of mind. Loneliness without the cruelty of your absence. 

Eventhough you left, the tender and restless protection you let it linger, allows me to sleep although wide awake. Breathless. Time devouring. Until your presence will make me feel again the rush, desire, freedom and quiteness of your naked touch.

Da alegria

Gosto desses olhos que se iluminam e que pausam em mim como se nada mais existisse naquele longo momento. Esse olhar decidido, seguro, revelador de um modo de estar ciente do que se quer e descomplicado.
Fazes-me rir. Como se o mundo fosse fácil. Como se salvar-me das trevas não fosse uma missão mas sim manter-me saciada, livre, às gargalhadas, serena e em silencio, a ler com as pernas esticadas sobre ti.

Gosto das madrugadas de surf, mesmo ao frio. Dos beijos salgados e daquele teu cheiro misturado com água gelada. O cheiro que ainda hoje me faz ficar apreensiva, receosa, quando acordo a meio da noite e te ouço a respirar devagarinho e aquele cheiro está encostado a mim. E como aquele cheiro me apareceu e inundou de alegria.

Do massacre

Houve um tempo em que te quis muito. Te quis tanto que doía-me acordar e saber que não me querias. Perfurava os ossos saber-te longe pela distância que me impuseras.
Houve um tempo em que estar contigo era o meu descanso de guerreira que bailava com o meu mais feroz desejo. Descobri contigo que estar com alguém com o verbo gostar intensamente envolvido era algo que me trazia paz, emoção, risco, calma. Era algo que me completava, suavizava e desafiava.
Houve um tempo em que as tuas mensagens me punham bem disposta e me faziam rir com gosto e ar de criança. Saber-te a pensar em mim era alimento, catalisador, segurança. Quando os telefones se quedaram mudos, a rejeição ecoou gritante dentro de mim.
Houve um tempo em que não sabíamos nada, era tudo novo mas o caminho para ambos era automático. Magnético. Destinado. Até que num ápice se derreteu como folhas atiradas para uma lareira.
Houve um tempo de arrebatamento violento mas o massacre que se seguiu foi mais veloz, profundo, derramado sem j…

Do lugar certo

Sentia-se cansada, com cabelo indomável, cara queimada do sol, exausta, mas com desejo sem fim. Queria-o. Com ele era a intensidade certa, a profundidade certa, a força certa, o aperto certo. E o beijo. Tesão imediata e única com um abraço sem igual. O melhor. Com ele dormia sempre tranquila. Nos braços certos.
Na sua ausência, de alguém que a preenchesse assim, depois de todos demais falhanços, sentia a falta da violência daquela paixão agressiva que lhe consumia todos os cantos da mente até não se lembrar de nada mais. Apenas que era dele, toda sua e sem volta atrás, sem apelo, sem pensar, sem controlo, dor e submissão e, por fim, aquele rasgo de meiguice. Um afecto só deles. Tudo se rompia, sem pudor, até todas dores e rejeições saírem, até todos os enganos e dissimulações serem abolidos da sua mente.
Queria-lhe o toque animal. O olhar de quem a devora e, sem hesitações, solta todos os seus demónios, dominando os dela e libertando os de ambos. Queria a sua vontade quebrada, sentir-se…

Da elegância do beijo

A madrugada já vai longa e só agora partes pois é cada vez mais difícil que nos separemos. Nenhum o admite, no entanto, respira-se um travo de calma e boa-ventura no torpor do corpo e na elegância do teu beijo de despedida.
À janela, recolhida sob um lençol, vejo-te acender um cigarro e, parado, absorveres o frio matinal para apaziguares o desejo. De estar. Apenas. Ainda que tão difícil de dizê-lo.
Somos tão iguais. Caídos num silêncio que nos conforta, que nos esconde das confissões, sustenta o brilho dos nossos olhos e nos aproxima apesar dos bloqueios em manifestar mais do que um ardente toque.
Quando partes, sinto-te a falta. Enquanto não regressas, sinto-te a falta. E tu não és diferente. Quando regressares, apertas-me com tal força que sei que trazes o fresco do fim do dia e paixão amplificada. 

Das mentiras que te menti

via boudoir photography
Sim, é verdade, fugi. Escapei-me sem que desses por isso e fechei a porta; antes ainda te olhei uma última vez porque apesar de não saber porque partia e que força era aquela que me empurrava, sabia que te queria.
Também já te tinha abandonado tantas outras vezes. Seguramente que reparaste e foste-te sarando as feridas ao ar sem tratamento porque não me redimi.
Quando te deixei à espera para jantar porque prolonguei telefonemas com amigos sem me lembrar de te avisar que me ia atrasar apenas por estar a por a conversa em dia. Quando tu aninhada a mim me provocavas, a quente, e eu parava, de forma desinteressada, para dar atenção ao telemóvel com temas não prioritários de gajos. Quando te deixava num local e arrancava sem sequer esperar que atravessasses a estrada. Quando saíste a primeira vez da minha casa, numa madrugada fria, com Uber ainda por chegar, e que apesar de pleno pela pessoa que eras, certo que te adorava, mas nem sequer me levantei para te levar à por…

Das mentiras que ouvi

O corpo vigoroso rolou na cama e enroscou-se nela para completar o seu sono. Era belo. Jovem. Meigo. Abraçou-a e continuou a dormir, em paz. Ela não o quis acordar e deixou-se estar naqueles braços que por esta noite, como noutras tantas, vieram em seu socorro para acalmar a fome, a falta de calor, a dureza de palavras que ainda lhe ecoavam na pele, no espírito, na memória quando tentava dormir.
Os danos repercutem-se tempos a fio sem que saibamos quando cessam. Os riscos, as apostas, os desejos, o carinho nunca são suficientes. Nunca preenchem todas as necessidades, vazios, afectos. A sensação de ficar sempre aquém perseguia-a como um formigueiro. A atitude cínica tornara-se como uma dormência constante, mecanismo de alerta para que nunca suavizasse a defesa.
Ele beijou-lhe um ombro, a dormir, de instinto e não amor. Devolveu-a do torpor e lembrou-a das noites sem fim protegida por um outro abraço, no qual desaparecia com facilidade e felicidade sob palavras reais que eram apenas vãs. …

Da invasão

Amei-te assim que te quis. Senti-me presa a ti assim que soube que estavas na minha vida. Desejei-te todos os dias desde que me invadiste. 
Soltaste-me a curiosidade.  O inesperado. 
Enches-me de alegria. mesmo quando não sei o que fazer contigo, como agir, como ser o meu melhor; e ainda assim ilumino com a tua presença. Sou a mesma mas numa versão upgraded. 
Esperei-te, queria-te. Há toda uma aventura que nos guia.

In memoriam

Atravessei uma imensidão de deserto árido e floresta densa abrasadora para chegar ao mar. Andei em guerra comigo e com o mundo, com moinhos de vento, com a minha sombra. Uma pressa. Uma avidez em superar-me. Em preencher-me. A ansiedade de provar, a mim, aos outros. Intensidade em tudo, opiniões, decisões, sentimentos. Viver no limite do arrebatamento.
Cansa. Desgasta. Não elimina sensação de vazio. Não traz mais paz de espírito. Há uma gula continua pelo amanhã. Por outras coisas. Por satisfação. Por descoberta. Por motores em sobrecarga, potência máxima como se o mundo fosse acabar e tudo tivesse que ser esgotado.
E um dia queres qualquer coisa que não sabes o que é. Sabes que é outra coisa. É algo que te alimenta a paixão, a vontade de viver com risos, dar suporte para as quedas, uma construção em que participas e que te sentes cada vez mais envolvida, não arremessada para segundo plano. É teu. É de alguém.
Queres calma mesmo sem perder dose de loucura. Queres silencio pelo meio de um…

Da felicidade

Todos dias. Todos dias construímos um pouco de felicidade. Pode ser efémera. Pode não ser um continuo mas andamos de mão dada com ela. 
Apenas um elogio de alguém que não nos conhece. Um abraço apertado de alguém a quem chamamos amigo. Uma gargalhada honesta e profunda que liberta uma descarga de bem estar. Aquela música que de repente o DJ passa e nos arrasta para a pista e dançamos de olhos fechados, numa trip só nossa. A sensação de alívio e satisfação por algo que correu bem. Ver o nascer do sol quando já começa a puxar o calor. Embrenhar-nos num livro que nos afasta de tudo o resto. A emoção de um bailado tão vibrante como subtil. As festas no cabelo à laia de proteção quando nos recolhemos nos joelhos de quem nos ampara para chorar os cortes. Os golos do Jonas. O primeiro mergulho no mar e o tempo parar, por entre sal e solidão. Entrar nos jeans que não são vestidos há um ano. A mensagem que chega de surpresa e nos ilumina o rosto e dispara a adrenalina apesar do texto mais patet…

Dos atrevimentos

Não te prives de quereres. 
Atreve-te a saber o que desejas e a desejá-lo com força. 
Imagina todos os dias o que te apetece. 
Não traves o possível. 
Vive intensamente o que te dá tesão.

Dos avisos

Se te tivesse que te dizer algo sobre ela, avisar-te-ia que não te aproximasses. Ela é séria, brusca, de olhar assassino. Não tem tento na língua, nem limites na capacidade de ser honesta, e em ser directa como um machado afiado que atravessa entre as costelas e não cede espaço.
Mas o que a torna verdadeiramente letal é a sua capacidade de auto suficiência num mundo estranho que a penaliza pela lealdade, pela ausência de julgamentos ou moralismos, pela sinceridade desabrida quando todos escondem as suas intenções entre sombras.
A sua perigosidade advém do respeito pelo outro mas, sobretudo, e como prioridade, por ela própria, pela impossibilidade técnica de mudar em prol de algo ou alguém, e de aceitar com naturalidade que tal implica ser rejeitada muito mais que amada.
Ela basta-se. Ela exige. Muito. De si mesma. Não depende de ninguém. Sabe onde estão as falhas mas glorifica a sua luz. Tem tanto de fascinante e de temerária como de inquieta e perturbadora.
É como que intocável. Não por…

Dos dia 2

Primeiro, é ter a confiança e por os pés no chão. Com brio. Cabeça erguida. 
Com cautela mas sem nada temer. Os nossos pés são únicos, saberão qual o trajecto que nos levará aquele sítio que tanto ansiamos. 
A cada passo, que seja tranquilo por muito doloroso que o caminho se nos dificulte em cada metro.
É um pé ante pé, mas determinado por muitos obstáculos e medos.
É a segurança de que estamos a traçar o nosso próprio sapateado. 
A dança é só nossa, os pés desafiam com temperança e elegância e paixão.