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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2017

Dos vincos na coragem

Em cada fuga para a frente, uma emoção ceifada. Até não haver espigas que soçobrem ao sabor do vento. 
Em cada recomeçar mais certezas frias. Convicções quase espirituais de um distanciamento que aderiu à derme com naturalidade. 
Em cada centelha de possibilidade perdida, mais uma pedra na muralha que se agiganta. Mais uma volta no carrocel de todas as histórias que foram assim. Em cada silêncio pesado como chicotada propositada, mais um vinco na coragem de marcar presença. 
Em cada prova de que não estamos à altura, não merecemos, mais curtida fica a pele imune às frases batidas. Mais nos centramos em nós e desistimos de tingir com estrelas o céu de outrem. 
Em cada queda na arena, mais profundo é o corte da realidade que nos esmaga a voz. Pois actuamos a solo.

Do gostar de ti

Gosto de ti porque o teu sorriso me apazigua naturalmente. 
Gosto de ti porque esses olhos intensos me encantam à medida que falas. 
Gosto de ti porque não há ansiedade quando me envolves com a tua curiosidade. 
Gosto de ti porque estar contigo significa não palpitar como se vivesse no arame. 
Gosto de ti porque é simples, porque desliza em mim uma suavidade que mais não encontro. 
Gosto de ti porque sou mar agitado que contigo não é intempestivo. 
Gosto de ti porque me fazes rir com inteligência, com espontaneidade e no mesmo diapasão. 
Gosto de ti porque os teus abraços são o melhor e mais confortante dos silêncios. 
Gosto de ti porque estar sem ti amachuca-me os sentidos. 
Gosto de ti porque basta isso. É tão-somente genuíno, forte, disruptivo, sereno, vintage. 
Gosto de ti pelas razões certas mas na melodia errada. 
Gosto de ti porque é tão meu este estado de alma sem eco.

Da pele martirizada

E depois, como ficamos? Sem espaço para reconstrução, demolidos pelo peso do vazio? 
Incapazes de nos dar mais uma oportunidade de fazer entrar para o corredor das nossas venturas outro abraço quente, outro toque subtil no cabelo? 
Consumidos pelo receio, pela mágoa das histórias que nos vão ficando na pele martirizada como códigos de barras? 
Entregues à suave quietude dos dias, encostados à tranquilidade dos que gostam de nós e nos oferecem guarida incondicional? 
E trocamos a protecção e a zona segura da dor pela adrenalina de correr riscos, de voltar a vibrar, de despirmos os sentidos perante alguém que nos faça sentir vivos. E perde-se a trepidante emoção de viver cada dia no arame mas com desejo por aquelas mãos que nos arrepiam, pelo despique da discussão, pela gloriosa felicidade de partilhar um golo do Benfica.
E depois, é assim que queremos viver?

Das doses de ti

Com o olhar doce com que insistes em pousar esse quente no meu rosto, fazes-me ter vontade de te dar o mundo e as aventuras que o fazem girar, o colorido das manhãs nascidas sobre o mar, o som que sai dos rádios e me aproximam de ti.
Com o gesto meigo com que me puxas para os teus braços, sinto o solavanco emocional de te ter por perto e tremo como insana pelo prazer que me dás ao mexer no meu cabelo, que corre solto na nudez do teu peito, enquanto baixas as mãos pela brancura das minhas costas.
Com o sabor teu que me deixas nos lábios, recordo o vento de arrepiar dolente de outras noites em que histórias ditámos para os lençóis que nos tapavam e nos aproximavam do mesmo sonho, tu guiando o caminho vencido pelo cansaço, eu acompanhando para me manter perto de ti mais tempo.
Com a gargalhada que te caracteriza enches o espaço em que parece que mais ninguém existe, anulados pela força que nos atrai, como se os tivesse apagado para te desfrutar devagar, nos momentos que são parcos pelo tant…

Da ausência

Conceder-te-ia todos desejos, e não meramente três, para sentir o adocicado toque das tuas carícias no meu rosto. 

Faria as marés serem menos agressivas para que chegasses até mim e encostasses os teus lábios aos meus cabelos desalinhados com o resto do mundo. 

Aplacaria o frio cortante das tuas memórias mais sombrias, só para dirimir a distância entre nós.

Confessar-te-ia os meus enredos mais complexos com palavras simples, apenas para esticar as minhas pernas no teu colo e permitir que o repouso nos ditasse o fim de tarde. 

Olhar-te-ia com o mais profundo de mim para que sentisses que há mais aonde pertencer, onde ser feliz, onde perder os sentidos para ganhar devaneio emocional. 

Trazer-te-ia para o meu êxtase se não fora a tua ausência de mim.

Dos murros

É como um murro seco. Um directo com intensidade que violenta a existência. Desferido com a potência do corte mais doloroso, com a rapidez da ausência de emoção. O balouçar da corda que raspa no chão como chicote que flagela a carne mas sem deixar ferida de tão inexorável está já a pele. Viver em esquiva, não em fuga, mas na arte de estar com a guarda alta, capaz de não dar abertura ao adversário, escapar em segundos com reflexos apurados e um ataque feroz às circunstâncias, às possibilidades, aos rotundos "nãos", sem queda no ringue.

Do que foi

Hoje vi o amor da minha vida. 

Na música a Mafalda Veiga pede para «guardar e abraçar tudo o que te dei» e as palavras colam-se-me à pele como dúvidas, pois hoje vi o amor da minha vida, vi-o ao de leve como ao de leve ele e eu, outrora, nos encontrámos. Não houve sequer tempo para nos abraçarmos daquela forma quente e estreita de navegar nos braços de quem se gosta, nem muito para guardar, são memórias demasiado pesadas para serem assumidas. Não nos lembramos um do outro e não há espaço para recordações com um sorriso.
Vi-o e por breves instantes não acordei para ele, não o reconheci sequer. Vi-o, apenas, amparado a quem ele pertence, passei por ele como voo de um anjo sobre o sono de uma criança, com passagem silenciosa, ténue, com carinho e cuidado. Passou, hoje, ele por mim como o encontro de dois estranhos, passámos e não ficámos, sem o dramatismo dos filmes, nem trocas de olhares cúmplices carregados de histórias que ficaram para trás. Foi um cruzamento vazio de significado, o mun…

Do golpe de asa

Ele é uma paixão avassaladora, uma coisa inexplicável que consume por dentro, que me dá ganas de o beijar, acariciar nos meus braços, dar-lhe o ânimo  que ele parece não querer e não precisar porque, na verdade, não necessita de mim, sou apenas uma brisa que lhe deu ar num momento e que se desvaneceu com pressa.
Percebo agora quão penoso é deixá-lo ir e como queria que ele voltasse, mas à minha maneira, a esforçar-se por uma sedução eficaz que me deixasse de rastos sem que eu o revelasse, que me colocasse pronta e disposta sem que ninguém percebesse, que, enfim, me convencesse, embora aparentasse dúvida.
Ele será o grande momento do meu passado, o meu pequeno passo em frente e por causa dele descobri como sou abnegada, como posso ferver no interior por uma outra pele que pulsa com o seu aroma característico, com a sua energia vigorante, com um contacto letal como uma adaga adornada de diamantes e pérolas.
Apesar de tudo tenho que conviver com ele com naturalidade, como se não passassemos…

Das idas sem destino

Vamos partir sem destino. 
Pegar-te na mão e ir. Descobrir em ti uma aventura.  Cheiras a mar, a dias de calor, areia quente que se enreda no cabelo, ondas que batem no corpo quando as atravessamos destemidos quais crianças.  A tua pele evoca livros consumidos com sofreguidão sob a brasa, bolas de berlim com açúcar salpicado pela cara, a fins de dia em que o sol se põe ao ritmo de amêijoas e confidências.  Os teus olhos fazem-me dançar com frenesim, com suor pela espinha, vestidos leves que seguem a batida e a gin.  Encontra em mim a tempestade, noites de trovoada e jazz, silêncio com tantas coisas por dizer, o frio que não me trava. A barreira invisível que me cobre mas que é a minha maior vulnerabilidade.  Pé a fundo estrada fora. Assim é em mim.  Quanto tempo dura esta viagem sem esperança?

Tainted wish

Undress my tainted wish and kiss me under the rain. Let's make it be soft, bitter, kind, hard, funny, a game.  No rainbows, only thunderstrucks.  Closeness from belonging, the excitement of strangers. Bite my expectations, pull my smiles. Stormy weather.

Das portas giratórias

Sentava-se todos os dias no mesmo café, quase sempre na mesma mesa, durante a tarde. Chegava mais cedo, ou não, dependendo do trabalho que tinha, feito em casa, ou da hora a que saía do cinema ou terminava a aula de História de Arte.
Invariavelmente, pedia uma torrada, aparada, e um leite com chocolate Ucal. Fresco. Depois um café. Uma água. Os empregados já a conheciam, reagiam quase automaticamente à sua entrada, mas não havia espaço para conversas. Eram afáveis, ela sorria mas os olhos tristes de um castanho desiludido não concediam mais intimidade.
Durante as horas que ficava, ora desenhava, ora lia, ora rabiscava ideias para um livro que nunca iria escrever, ora quedava-se apenas a observar a rua, os clientes oscilantes, a porta do hotel de designque abrira há menos de um ano, em frente ao seu casulo diário.
A rotina instalara-se pouco depois do hotel ter aparecido na história. Antes ela apenas aparecia esporadicamente para um pequeno almoço rápido ou para comprar pão ao fim do dia,…

Da imensidão do querer

Querias saber como era. 
É sal devolvido ao corpo em cada entrada no mar. 
É soltar-se a energia num sem parar de palavras e risos, seguido de um sussurro de nostalgia que se abate perante tudo o que falta, perante este vazio constante. 
É paixão a exigir loucura em escalada, seguida de cansaço, a pedir silêncio e o conforto de um abraço. 
É ser rainha para depois almejar a invisibilidade. 
É dar-te tudo e, em simultâneo, temer entrar em território em bruto com as defesas em baixo. É querer viver o mundo com sofreguidão mas não querer sair dos lençóis que cobrem a pele em arrepio. 
É desejar atirar-me com o mais potente e certeiro directo, ainda que me vá esquivando como se fora ballet. É querer-te com imensidão e tu não quereres saber nada disto.

Do beijo único

Foi a surpresa. O inesperado sabor de que se está em casa. Como um beijo espontâneo, arrebatador, fosse a resposta para tudo quando nem sequer se está a pensar. Apenas a sentir a pressão daquelas mãos nas costas e um sismo que nos arrepia. 
A descoberta do cheiro, a sintonia da perda de controlo, o tempo que se arrasta num momento tão único, destruidor, ansiosos por mais. Um só beijo e tudo se desmorona. 
A fé resgata-se pelo desejo. A ansiedade queda-se pela frenética trepidação da pele contra pele. Um beijo, segundos apenas, ambos extenuados pela vitória. Um só beijo e quando findou sabia que valera a pena. 
O que ficara para trás e o que não aconteceria daí em diante. Mas aquele beijo fez acreditar, por breves instantes, que havia chegado. Ao destino. Mas foi um beijo e uma só estação de passagem. Um beijo - tudo mas, na verdade, nada mudou.

Um grande tudo único

via @thegfeboudoir
Tocou-me no pescoço com a ponta dos dedos, desviou com um  gesto macio a madeixa que lhe tapava o caminho e beijou-me com lábios quentes, como se me possuísse naquele momento. Bastava senti-lo perto e ficava pronta a recebê-lo. E ele estava muito perto, na mesma cama onde havíamos caído horas antes para mais uma vez nos perdermos. Terminávamos sempre por nos achar nos braços um do outro. Eu encontrava uma calma momentânea que seguia ao rebuliço que ele provocava. Nunca chegarei a descobrir o que ele encontrava, para além da ternura infindável em que adormecia. Exausto, sucumbia com facilidade sob as carícias que lhe fazia no cabelo ou as massagens suaves nas costas.
Abraçou-me por trás e prendeu-me as pernas, ainda que soubesse que eu não iria fugir. Eu escondia sempre todas as emoções que ele suscitava em mim, mas ele tinha consciência que dominava os meus sentidos, da mesma forma como dominava todos os aspectos da sua vida, como dominava as conversas em que entrava.…

BW sinful secret

"- If i give you light could I tell you a secret? 
- Why would I wanna' know your secret? 
- 'Cause you're on it. Black and white sinful secret.
- Light me. And slowly unfold me and whisper me a tale I never heard before."

Das histórias que nos definem

Ha histórias que nos definem. Momentos que nos quebram de modo invisível mas deixam este rasgão acentuado. E passamos a ter um andamento implacável, distante, frio, contundente, sempre em luta contra uma natural e espontânea vontade de, por minutos, acreditar. 
São as heranças de todos os passados em que possibilitamos dar espaço e tudo que, em sequência, comprovou que tal é dar-nos à morte. 
Que há caminhos que se fazem a só. E isso confere-nos o instinto para sobreviver à ilusão, à expectativa e ao bambolear das emoções. Carregando a arma após cada bala que desferimos, sem transigir.

Das estrelas no céu

Por mais estrelas que ponha no teu céu, estou protegida pelo manto da invisibilidade e mal me sentes quando estou encostada a ti ainda que tão à distância. 
Com as defesas erguidas com medo de que um passo em falso te faça afastar ainda mais, mas vulnerável pela força com que me invades. 
Duras penas as minhas por ter-te em mim com esse lacre que me faz rir quando me dilacera o interior a triste saudade. 
Arrancas-me o chão com sabedoria. Queimas-me a alma com o sal que trazes nas gargalhadas, no modo como gesticulas e na voz quente. 
Testo as minhas forças na arte do disfarce. É desatino que me empurra para longe quando quero estar perto. Tão perto de ti.

Da vontade insana

Não me olhes como se nada mais houvesse para além destas 4 paredes, da música que nos eleva e das piadas que só nós percebemos. 
Não me toques como se fosse, sempre, a primeira vez e o burburinho que me percorre a pele não te electrizasse. 
Não te encostes em busca de descanso sabendo que isso me desmonta como tule fino, quando só necessitas do calor de fogo amigo que te proteja, fugaz. 
Não me deixes adormecer, render-me à paz tão surpreendente como estranha, que nem me reconheço. 
Não me puxes para ti como se me pudesses dar um vislumbre de algo em que não acredito. 
Não me faças querer-te ainda mais do que esta vontade insana já presa a mim.

Da tormenta dos anos

"Onde vais?" Não se vislumbrava claridade e ela já vestia a camisa, depois o blusão, sem som, numa ponta da cama mal iluminada pelo candeeiro da rua. -"Não é para ficar." Tocou-lhe ao de leve na mão, impedindo-o que a agarrasse. "Falamos depois." 

Puxou-a sem a deixar erguer-se com uma força que nascia mais da pancada da partida inesperada do que do orgulho ferido. Porque partia ela? Acossado por um panico súbito agarrou-se à ideia que reencontrá-la fora um sinal. 
Enfrentou-o com nudez rude de olhos cansados, impenetráveis, sem vacilar. Magoava-o, de modo consciente, gélido. Sem arrependimento, sem remorsos, sem questionar. 
Esperara tempo demais, quisera-o demais, tinha-lhe sentido demais a falta mesmo quando ele a desconhecia propositadamente. Agora não o conseguia ter sem dor, sem brasa acesa pelo tormento dos anos. " Falamos um dia destes." 
Nem todas as histórias de amor se escrevem a direito. Nem se submetem à mais arriscada das emoções. N…

Sunday rain

Sunday rain, wash away the darkest thoughts, bring a restart, cleanse all lost smiles, soaken the bones, make me feel alive. Not just a mere witness.  Cold morning, violent waterdrops fueling soul escapes.

Dos pontos fracos

Os nossos pontos fracos estão nos afectos. Quanto mais próximos estamos de abraçar alguém com a imensidão que nos sustenta, mais duro é o desconforto de não fechar os braços e apenas assim ficar tudo bem. Maior a impotência, avassaladora a frustração por não conseguir ser o super-herói que traz sob a capa as artes calmas da partilha de carinho. 

É um querer que precisa de resposta e isso despedaça-nos o interior. O tempo passa, este descompasso prolonga-se, corrói e nada muda. A vulnerabilidade, por mais bela que seja, é uma agrura. Pode ser letal.

Let's pretend

Let's pretend i am not a wounded animal, trusting only its own loneliness and instinct. Let's pretend that watching others being so non-committed and acting as rulers of selfishness, I have not become so dettached and incapable to believe. Let's pretend I did not made of myself a wall of thick cinism and cold cut off. 
Let's pretend you crave for risking it all just to see me laugh. And mess my hair. Let's pretend you miss me. And make an effort to pave your way into this rough hill of two strangers just enjoying the ride. Let's pretend we could find eachother again in another life and we actually had a chance to allow ourselves to collide with a bang, with unstoppable discovery, lust and smooth comfort.

Faltas tu

Poderia querer-te. 

Abandonar-me a uma longa espera para que me desvendasses. E percebesses que esta ânsia por mais se aplaca ante a tua presença. Que sou alimentada por uma energia inesgotável entrelaçada com insatisfação impaciente. Que se revigora quando me entrego à paixão que me despertas, que esgoto em beijos, gargalhadas e conversas; que entrego para viver-te com a mesma intensidade, desejando que te tranquilizes em total confiança. Que vivo com sede de curiosidade. 


Mas quero ser um refugio longe das luzes, do ruido, da hostilidade; quero ser para ti tanto, dar-te uma imensidão de possibilidades de paz. E batalhas caídas na almofada com fervor. 


Poderia desejar-te, poderia dar-te um caminho, sinuoso mas que se faz bem. Porém, faltas tu. Jogo de soma nula.

Da avidez

Desaperta-me a loucura como se bastara puxar um laço de seda. Desfaz a luxuria com um olhar negro e irónico que carrega poesia que me baila na cabeça sempre que imagino o teu rosto.
Embala-me a solidão, entende-a, aceita-a, sossega-a sem esperar que ela cesse mas amaina-a com o silêncio das tuas impressões digitais na minha pele. A arder. 
Entrega-te sem reservas, sem pudores, com toda a imaginação em rédea solta. Uma página em branco na qual podes misturar palavras, verbos, construir acções, desenhar-me o desejo enrouquecido. 
Ninguém é sinónimo de ninguém. Descobre-me com avidez, com vontade, com curiosidade, sem guião, com a bússola das oportunidades. Arrisca-me. Tira-me os medos. Faz-me acreditar.

Da maldição

Acordaste de modo pacifico enquanto o Sol se aventurava pelas frestas da janela mal fechada, soltaste um braço da lisura do lençol de linho e esfregaste, ao de leve, os olhos tentando trazer à tona as recordações mais recentes do que foi feito antes de teres despertado. O vazio bailava no quente dos teus olhos negros... não te lembravas de nada, estavas perdido como era teu costume pelo amanhecer. Bocejaste baixinho e aninhaste-te mais um pouco.

Observei os teus movimentos pela nesga de espelho que conseguia vislumbrar da cómoda e deixei-me estar quieta, com medo que desses por mim, que te espantasse. Quase não respirava só para que a minha presença não fosse descoberta, estando ali mesmo ao teu lado, colada a ti pela imobilidade dos dois corpos, no silêncio do quarto interrompido pelo temor acelerado do meu ritmo cardíaco.
“Bom-dia”, disseste em tom calmo adivinhando os meus receios. Suspirei, mas custou devolver-te a resposta. Que tonta, é fácil de dizê-lo agora, mas naqueles segundos…