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A mostrar mensagens de 2017

Do que nada mudou

E agora? 
Nada muda, na verdade. A terra tremeu apenas por momentos e só nós sentimos. Eu, na pele, saboreada entre alucinação e crueza. Tu, com a intensidade de quem se propõe a ignorar logo de seguida. 
Mas o mundo seguiu no seu curso normal. Nenhuma erupção parou a vida tal como ela é. Não salvámos vidas. Nem as nossas. 
A minha permanece neste exaltado desalinho de tudo ou nada, agora e já ou nunca, nesta impaciência de quem não tem espaço para mais dores nem desejo por desalento. A tua na calma hesitação de quem tem o mundo na ponta dos dedos, como se música fora que saísse do teu recatado turbilhão emocional. 
Não descobrimos novos caminhos. O meu continua em passo acelerado para algures onde finalmente repouse este ardor e explosão de fazer, a pedir de ser domado. O teu queda-se na distante solidão segura, desconcertante, madura. 
Segue tudo como é, como já foi, como será. Impassível. Com o suave sabor de um acaso

Do sentir-te saudades

Aninhada em insónias vívidas, sinto-te saudades. Do nada, da semi-escuridão para onde te atirei, da voz acelerada quando falavas a nervos sobre os insignificantes do dia a dia mas que eram uma ponte que abanava entre nós. Partilha, vontade de partilha, medo da partilha, e ausência. 
Sinto-te saudades dos silêncios reflexivos, como se eu não existisse, quebrados por banalidades que de repente eram tão importantes. 
Sinto-te saudades entregue no meu colo, com receio meu de te acordar à mais suave das carícias e controlando a força dos meus impulsos para te proteger das agruras, do cansaço; da incapacidade de sentires que há um mundo de afectos, consistentes e a diário mais fortes, que te ampara. 
Sinto-te saudades, algo tão intensocomo maduro, assustador e seguro.

Dos amores que não cessam

Quanto tempo dura um amor?
Instantes são suficientes para aqueles que se apaixonam todos os dias no metro. O tempo de uma viagem que enche o peito de ânimo e bem estar e cessa a memória em horas sem dor ou mágoa.
Podem ser semanas nos amores de verão, carregados de sol, beijos apressados, à sucapa, noites longas de copo na mão e areia na roupa madrugada dentro.
Ou serão anos, quando somos adultos e achamos que ser adulto é ter um amor à espera em casa, que nos acompanhe o de vamos, que nos dê a mão nos embates, nos aceite com tolerância e estima até ao dia que a rotina, o desgaste, os Eu se diferenciam e alguém percebe que esse amor se esgotou.
Pode ser metade de uma vida? Sem reciprocidade, sem materialização, sem proximidade? Podem ser tantos anos desde quando tudo começou? E qual castigo - um fica aprisionado a esta sina de ter o outro colado a si? 
Venham outros amores, venham outros amantes, venham dores, venham alegrias, e ser mesmo assim aquela a fractura exposta mais íntima que pod…

Porque te quero

via @boudoir photography

Quero-te. Com tanto desejo quanto aquele que é possível carregar numa mão cheia de saudade. 
Quero-te. Com um sem fim de tremor que me percorre  como um todo-terreno pelo corpo e finda nas coxas que te pedem com urgência. 
Quero-te. Com a imensidão de quem não te prende com pernas em torno das tuas ancas para que estejamos em sintonia como sempre antes havíamos estado.
Quero-te. Com a sofreguidão de beijos que espalham paixão, tesão, carinho, intimidade. 
Quero-te. Porque ando às voltas na cama, desperta, quente, sedenta, possuída por insonias pela tua ausência.
Porque te quero. Porque me venho de amor com  com o teu toque.

Das lutas

A duvida, dilacera. O talvez, exaspera. O desconhecimento, esfaqueia. O vazio do futuro, um ingrato passeio do dia a dia. 
Aceitamos que isso custa, baixamos os braços e resignamos ao imaginário conforto do pendulo do tempo. Ou lutamos, fazemos frente ao bloqueio do convencional e acreditamos que o que bate no peito sabe sabe para onde vai. Que há uma razão de ser que sustenta a insatisfação e a inquietação pois o melhor está pra' vir.

Da cicatriz devassa

O oráculo concluiu que cicatrizo rápido, que recupero célere das mazelas, com capacidade de regeneração qual heroína de filme. Reconstruo a máquina como se não houvera sofrido danos e sigo em frente, levando por arrasto o que haja no caminho.
Essa disponibilidade da derme, do corpo, da alma, em sarar será a razão pela qual sempre que te vejo, acedo. Sempre que te acercas e derrapas os dedos ao de leve pela nuca e pela espinha, atiro o pescoço para trás, fecho os olhos e deixo, sem duvidas, que me dispas. A roupa e a força.
E começa o jogo. A dança. A batalha. A estratégia. A nudez completa versus o ritmo lento. A intimidade total revelada sob os teus lábios, o não querer dizimado pelas minhas pernas que te prendem a mim e nos embalam sem palavras. Sem amor. Olhos nos olhos, pacto de luxúria e suor, costas arranhadas, ombros mordidos para calar quando estão a vir os gemidos.

O tempo passa contigo em mim. Sem cerimónias, ambos vitoriosos pelo que damos e pelo que recebemos. Tanto, êxtase f…

Dos dias sem fim

Dias sem fim à espera que viesses. Que desses um sinal. Que vivesses à altura, sem escapes. Que nada receasses. 
Que te deixasses libertar sem frases feitas, calculadas. Que me olhasses directamente nos olhos, os vincasses com destrutibilidade e soubesses exactamente o que neles procurar, com a curiosidade de criança de descobrir (sempre) algo diferente. Ser arrojado em pleno, não apenas em planos grandiosos, mas encarares as minhas olheiras de sexo, ansiedade e desconfiança e quereres mais.
Sempre em fuga, qual herói de BD, com timidez desarmante, cortas com facas afiadas que são as tuas palavras, o silêncio que nos inquieta por ser demasiado confortável, íntimo, como se a segurança fosse um desconhecido risco movediço, insuportável a quem está habituado ao arame. 
E a solidão é mais que um desígnio, é o que nos une.
Posso-te combater, como tudo que enfrento? Posso-te roubar paz ou dizer-te que te dou sossego pois isso me suaviza as cicatrizes? Desafiar a lei da lógica num caos imenso qu…

Da luxuria à flor da pele

Pode o desejo ser definido por palavras em linhas rectas? Um toque traduzido em vários pontos até que se perceba? Um arrepio que cai nas páginas de um caderno? 
Não há sopro que consiga expressar a pulsão. A riqueza de um idioma não é suficiente para enaltecer a corrida da luxúria à flor da pele, a percepção galopante, desabrida e as emoções febris de uma voz contida. 
A vontade é como um fio de cabelo que se solta lentamente, de forma insinuante, mas com urgência e se estende por umas costas nuas expectantes.

Do cheiro a ti

Cheiro a ti. Deixaste esse cheiro pela mesa, entre os copos vazios. Pelo quarto apesar das janelas abertas de ausência. Pelos meus cabelos tão revoltos de gente perdida como a ansiedade do meu estado de espirito. 

Deixaste o teu cheiro nos meus pensamentos com a mesma violência como desalinhaste o meu interior longínquo, remexeste o caminho com saciedade e com a facilidade de peregrino que sabia o trilho. 
Tenho o teu cheiro colado a mim e não sei como esquecer esse frenesim na espinha. O desejo não aplaca a falta de expectativas nem o som acelerado dos teus olhos quando te faço rir. 
Deixaste o rasto do teu cheiro preso no corredor escuro, entre livros, gemidos, saudade inconfessável. 
Ficou o teu cheiro algures numa rua que atravessei em sentido contrário, sob a chuva fria, calçada íngreme, passos incertos, sem receios, só o prazer do teu cheiro a devastar a carne em rodopio. 
Nada mais que o teu cheiro, nem forte nem doce. Só teu. Intransponível.

Da carnificina

De todas as vulnerabilidades que pode ela ter, ele é quem mais lhe vinca a alma. A mais rasgativa e sem explicações. 
É o som da madeira a estalar que por vezes se ouve, do nada, inusitadamente, sem saber como e de onde aparece. Ele é a caneta que se procura até desistir, se julga perdida e, subitamente, aparece à descarada no sítio mais óbvio. Ele é como uma nota abandonada num casaco que já há muito não se usa e, por surpresa, se amarrota sob os nossos dedos nervosos, quando nos refugíamos, à procura de uma atenuante de ansiedade, mãos nos bolsos. 
Assim é ele, esse inexplicável bloqueio dela.
Tudo remonta ao que ele lhe vetou, a esses olhos tão doridos como vivos, tão carentes como assassinos, à voz tão destruidora como radiofónica. Aos beijos dele sem igual, brasa ardente que foi carnificina.
A imagem que ela guarda dele é uma sombra que a corrói. Não é boa, não é má, não existe mas perdura. Inequivocamente, ela não existe para ele e isso só lhe faz lembrar o falhanço que é ainda ele …

Da firmeza em nós

via @lovecherry
Em algum dia tinha que estourar. Esticamos tanto a paciência, a espera, os limites da tolerância pelo que nos dão, pelo que nos sonegam, pelas meias respostas, pelos silêncios, pelos entusiasmos renovados seguidos por abruptos “já era”, pelas indecisões, pelas palavras sem conteúdo.

No fundo, exaustos pelas promessas dos anúncios, dos livros, dos amigos, das infinitas possibilidades à disposição de um click. E nada, de facto, verdadeiramente revelador, substancial, honesto, genuíno, se desenrola.
Tudo continua no seu ritmo de peças que não encaixam, de jogos que temos que jogar, de aparências para não mostrar entusiasmo inusitado, ou distância que não revele que também caçamos, ou um sinal de putativa carência que possa ser a queda do arame.
Num dado momento, já não podemos ser o garante de tudo e todos. Assumir o nosso egoísmo é somente a sequela. Firmar o pé, com total segurança. Basta de apenas receber quando é oportuno aos outros. De termos que dar vários passos atrá…

Do abandono sem freio

Rompeu-me os ombros com unhas sedentas e vontade sem freio. Gemeu enquanto me forçava contra ela, trêmula, suada. Arqueava as costas de tesão à solta. 

Silêncio. 

Apenas deixava escapar prazer e pedia-me com os olhos que a fodesse. Mais. Intenso. Forte. Próximo. Profundo. 

Beijava-me com sofreguidão e abandonava-se totalmente, deixava-me tê-la com toda luxuria, guiava em êxtase. 

Satisfazê-la era um desafio. Mamas fartas que se deixavam submeter na voracidade da minha boca. Quadris irrequietos, pernas que se abriam com necessidade. Sem uma única palavra, toda ela puro sexo, delírio, despertar numa trip. 

Fazê-la vir-se era droga no meu organismo a levar-me ao pico e flutuar inebriado.

Do desespero e êxtase

Como descrever quando nem sequer quero pensar sobre isso? Apenas vivê-lo. Imensamente. 
Deixar que o toque das tuas mãos faça a minha pele respirar numa tensão profunda. O coração dispara em desespero e êxtase. Não só porque cobres a minha nudez com esse olhar que não entendo o que descortina; mas pela cumplicidade contigo que me faz sentir mais despida, desejosa. 
Imagino tanto e queria saber tanto mais mas prefiro silenciar-te nos meus braços e deixar que o fogo existente na minha alma se liberte. Que seja significativo, um momento disruptivo, sem barreiras, sem frases ou proclamações.

Uma mesma única pessoa

via @boudoirphoyography


Por vezes, sim, tantas vezes, não. Ora, ruído em pleno, ora ensurdecedor silencio. Olhos que cedem ao choro, olhos que se toldam pela raiva. Dias bons, dias de tormenta. Tantas vezes perseguida pela dúvida, tão forte nas certezas. Que sucumbe ao carinho, que reage com ferocidade. Por vezes imprevisível, mas sempre em modo de sobrevivência. Ora com gargalhada destemida, ora com dor inexplicável. Aqui ou ali. 
A mesma entidade, a mesma pessoa, a mesma organização de tecidos, células e substância.

Da imaginação

Sentia-lhe o olhar intenso a queimar por entre o vestido negro. 
O contorno do peito, até então discreto, parecia-lhe que ganhara uma exposição nova. Subitamente sentia que estava sob alcance da mão dele, desejava que ele o fizesse e enterrasse a boca num mamilo. 
Um arrepio sulcou-lhe a espinha e aqueceu-lhe as coxas. Todos continuavam a conversar, banalidades, mas o filme sem legendas possíveis que decorria na sua cabeça era mudo, apenas entrecortados com gemidos. 
Imaginava-lhe o toque, a submissão perante atitude de comando indisfarçável que ele emanava. Era como se já estivesse nua, de mãos trémulas agarradas ao parapeito sob o peso dele que a consumia ora devagar ora com voracidade quase animal. 
Gotas de suor tímidas caiam-lhe pela nuca contrastando com a violência do que a devorava.

O meu pai nosso

Abençoado seja este desassossego que reina em mim e me faz agitar os pensamentos em cada passada rápida e me alimenta desta necessidade de ir mais longe, mais depressa. 
Louvada seja esta insatisfação natural, a ânsia de abrir portas, deixar o caos correr desabrido. 
Bendita insanidade que me contagia, assusta e me dá alento; que afasta os fracos, alegra os destemidos. 
Venha a mim o pecado em cada dia, a raiva e a urgência que se congeminam em brasa, a agressividade afoita, o cansaço intrépido. Em toda e qualquer madrugada, sempre novos nadas com a segurança que sou o meu tudo.

Do vento quente

Caía um vento quente à medida que a praia se esvaziava por completo e o sol se distendia no horizonte. Era uma brisa leve, sensual, inebriante como erva suave, cada passa a abrir os sentidos em todas as direcções. 
Ela cerrou os olhos e arrepiou-se. De desejo. Das memórias que percorreram em catadupa a espinha. A mente viajou para um momento em que esteve, despida de resistências e força, plena de abandono e total consolo nele. 
Onde estaria ele agora? Ele e a sua determinação em retê-la nos seus braços. Ele e o apetite voraz pela boca dela. Ele e os sonos demorados, com respirações em uníssono.
Ele que estará agora noutro corpo, a deixar-se ser amado por outro alguém, a ser-lhe impossível conceber não enviar uma sms matinal de "bom dia" que revela um "quanto te quero". Ele que olhou para uma outra pessoa e soube; soube que era ali que ancorava o coração.

Não deixava de ser tão quente o vento,tão marcante a recordação das suas palavras; era um balouçar sem rumo.

Do que me basta

Acordámos cedo.


Fizemos atípico brunch madrugador com sumo fresco, fruta, panquecas, pão ainda quente acabado de comprar, com manteiga, queijo e Nutella. Bebemos café, em paz, numa manhã quente, enquanto ouvíamos os pássaros no jardim ainda deserto numa lenga lenga apaixonada. 
Zarpámos para uma praia a mais mais de 45 minutos de distância, onde sabíamos que estaríamos a salvo da afluência de veraneantes de Outubro. Eu, carregada de livros, moleskine, lapiseira e óculos de sol. Tu, a fazer coro às músicas que passavam no rádio. 

A água estava quente. Passámos a manhã entre mergulhos. Almoçámos na barraca de praia, que prolongava o seu trabalho há mais de 15 dias. Vieiras gratinadas. Salada de frango para ti. Hamburguer para mim. Sangria para dois. 
Dormiste a sesta à sombra do toldo alugado e eu devorei o meu livro, com creme protector no rosto, no corpo, spray protector no cabelo. Estou coberta por um manto protector de alto a baixo. Já não sei viver sem ele. 
Regressámos com as roupas mo…

Dos sorrisos

Não é pelo flash da câmara que os meus olhos brilham. 
Não é pelo sol de fim de dia a bater ainda com força quente nas minhas costas. 
Não é pelo cheiro a sal preso nos cabelos húmidos, que me afastas do rosto queimado e com sardas. Não é pelo vento suave que acentua o arrepio na pele que se desenha só por estares ali.
Sorrio instintivamente, só de te ver. De te sentir em meu redor nesta dança que mistura "apetece-me", ironia, "abraça-me". 
Sorrio de real paixão por aquele fim de tarde, pela liberdade dos teus movimentos quando me confundes, pela tortura viciante da antecipação. Paixão pelas piadas a despique. Paixão pelo modo como a gargalhada emerge mais solta, como as minhas pernas vacilam ante a tua proximidade, pelo peso do mundo que já não carrego nestes instantes. 
Sorrio pela segurança apesar de ser em areia que os meus pés se sustentam.

Do sofrer

A um minuto da tua presença esquivei-me por entre labaredas que me levavam a fugir para longe, longe demais para saber o nome, datas ou ter memórias.  Não te podia, no entanto, negar porque partilhávamos as mesmas esperanças vãs nestas quatro paredes que nos albergavam e ambos temíamos cada segundo que passava, receosos que o equilíbrio frágil que havíamos inventado sucumbisse ao peso do nosso passado, aos sonhos partidos de que nos alimentávamos.
A música soava baixinho da tua velhinha rádio, lias o jornal, enquanto eu tentava concentrar-me no livro, como se não estivéssemos verdadeiramente ali, pois na realidade andávamos à deriva nos nossos próprios oceanos. Não consigo ainda perceber porque a solidão nos castiga mesmo quando partilhamos o mesmo espaço; será então preferível partir à descoberta do que há para lá de nós, buscar em outras estradas outros destinos incertos que não nos matem lentamente perante aquilo que não vivemos apesar de o parecer?
Teria sido melhor que nunca me tiv…

Da frieza inata

Convidaste-me a entrar. Eu não quis. Preferi ficar no passeio a ver as estrelas e a deambular sobre a vida, bola, filmes. 
Mas querias-me no teu mundo, partilhar meios segredos e meios suspiros enquanto os dedos me percorriam a espinha. E foste-me levando para dentro, com falsa calma e aparente generosidade, despiste-me as defesas e abraçaste as inseguranças. Tentaste quebrar-me o instinto por entre as minhas gargalhadas. 
Mas a frieza não se corrompe num golpe de asa. É inata. 
E quando fizeste a inflexão emocional, de quem já fez o seu xeque mate, foi mais fácil abrir a porta e sair. Afinal nunca a fechei à entrada. Estive sempre na corrente de ar de quem sabe que o conforto do calor não é real.

Do dar-me

Dá-me a estrada, eu faço o caminho. Tenho em mim o calor de arriscar. Cruzar as zonas íngremes e subir. Sou capaz de amansar a pressa para chegar até onde estejas sem perder a intensidade de quem quer. Muito. Estar onde estás. 
Dá-me o livro, eu escrevo as linhas que atravessam os lençóis amarrotados. Sem epílogos. Mas com desassossego nas palavras e entrega no toque.
Dá-me a música, eu danço, acalmo o caos na embalo que partilhamos. Proteger-te dos receios, desprender-te as gargalhadas, permitir que te dês em cada batida, em cada nota, em cada beijo.

Visita guiada a ti

Quando ris o mundo pára. O meu mundo. O único que conheço. No qual me sentia segura. Agora duvido. Fraquejo. Hesito. Mas sigo em frente porque algures estás tu e porque não posso ficar aqui parada quando te possa encontrar.
Quando ris, iluminas a sala por muita escura esteja a noite. Por muito frio que seja o vazio que nela reina, rapidamente colorido com a expressão que de ti sai com a força destruidora do teu sorriso.
Quando ris, apetece-me reter-te assim. Colar-me a ti e partilhar essa tua alegria. Deixar que a tua música me console o silêncio de outros momentos, deixar-me inspirar pela forma como seduzes o som que enche o pouco espaço livre que há entre nós.
Quando me tocas, a lua baila lá em cima tão perto de nós, revelando o meu rosto perdido em ti, rosto descoberto pelo cabelo que afastas de modo decidido. E eu sinto que esse toque me anestesia o corpo que fica preso àquele segundo em que renovamos o olhar. 
Quando me abraças, o teu calor contagia-me a vontade e eu quero sempre mai…

Dos vincos na coragem

Em cada fuga para a frente, uma emoção ceifada. Até não haver espigas que soçobrem ao sabor do vento. 
Em cada recomeçar mais certezas frias. Convicções quase espirituais de um distanciamento que aderiu à derme com naturalidade. 
Em cada centelha de possibilidade perdida, mais uma pedra na muralha que se agiganta. Mais uma volta no carrocel de todas as histórias que foram assim. Em cada silêncio pesado como chicotada propositada, mais um vinco na coragem de marcar presença. 
Em cada prova de que não estamos à altura, não merecemos, mais curtida fica a pele imune às frases batidas. Mais nos centramos em nós e desistimos de tingir com estrelas o céu de outrem. 
Em cada queda na arena, mais profundo é o corte da realidade que nos esmaga a voz. Pois actuamos a solo.

Do gostar de ti

Gosto de ti porque o teu sorriso me apazigua naturalmente. 
Gosto de ti porque esses olhos intensos me encantam à medida que falas. 
Gosto de ti porque não há ansiedade quando me envolves com a tua curiosidade. 
Gosto de ti porque estar contigo significa não palpitar como se vivesse no arame. 
Gosto de ti porque é simples, porque desliza em mim uma suavidade que mais não encontro. 
Gosto de ti porque sou mar agitado que contigo não é intempestivo. 
Gosto de ti porque me fazes rir com inteligência, com espontaneidade e no mesmo diapasão. 
Gosto de ti porque os teus abraços são o melhor e mais confortante dos silêncios. 
Gosto de ti porque estar sem ti amachuca-me os sentidos. 
Gosto de ti porque basta isso. É tão-somente genuíno, forte, disruptivo, sereno, vintage. 
Gosto de ti pelas razões certas mas na melodia errada. 
Gosto de ti porque é tão meu este estado de alma sem eco.

Da pele martirizada

E depois, como ficamos? Sem espaço para reconstrução, demolidos pelo peso do vazio? 
Incapazes de nos dar mais uma oportunidade de fazer entrar para o corredor das nossas venturas outro abraço quente, outro toque subtil no cabelo? 
Consumidos pelo receio, pela mágoa das histórias que nos vão ficando na pele martirizada como códigos de barras? 
Entregues à suave quietude dos dias, encostados à tranquilidade dos que gostam de nós e nos oferecem guarida incondicional? 
E trocamos a protecção e a zona segura da dor pela adrenalina de correr riscos, de voltar a vibrar, de despirmos os sentidos perante alguém que nos faça sentir vivos. E perde-se a trepidante emoção de viver cada dia no arame mas com desejo por aquelas mãos que nos arrepiam, pelo despique da discussão, pela gloriosa felicidade de partilhar um golo do Benfica.
E depois, é assim que queremos viver?

Das doses de ti

Com o olhar doce com que insistes em pousar esse quente no meu rosto, fazes-me ter vontade de te dar o mundo e as aventuras que o fazem girar, o colorido das manhãs nascidas sobre o mar, o som que sai dos rádios e me aproximam de ti.
Com o gesto meigo com que me puxas para os teus braços, sinto o solavanco emocional de te ter por perto e tremo como insana pelo prazer que me dás ao mexer no meu cabelo, que corre solto na nudez do teu peito, enquanto baixas as mãos pela brancura das minhas costas.
Com o sabor teu que me deixas nos lábios, recordo o vento de arrepiar dolente de outras noites em que histórias ditámos para os lençóis que nos tapavam e nos aproximavam do mesmo sonho, tu guiando o caminho vencido pelo cansaço, eu acompanhando para me manter perto de ti mais tempo.
Com a gargalhada que te caracteriza enches o espaço em que parece que mais ninguém existe, anulados pela força que nos atrai, como se os tivesse apagado para te desfrutar devagar, nos momentos que são parcos pelo tant…

Da ausência

Conceder-te-ia todos desejos, e não meramente três, para sentir o adocicado toque das tuas carícias no meu rosto. 

Faria as marés serem menos agressivas para que chegasses até mim e encostasses os teus lábios aos meus cabelos desalinhados com o resto do mundo. 

Aplacaria o frio cortante das tuas memórias mais sombrias, só para dirimir a distância entre nós.

Confessar-te-ia os meus enredos mais complexos com palavras simples, apenas para esticar as minhas pernas no teu colo e permitir que o repouso nos ditasse o fim de tarde. 

Olhar-te-ia com o mais profundo de mim para que sentisses que há mais aonde pertencer, onde ser feliz, onde perder os sentidos para ganhar devaneio emocional. 

Trazer-te-ia para o meu êxtase se não fora a tua ausência de mim.

Dos murros

É como um murro seco. Um directo com intensidade que violenta a existência. Desferido com a potência do corte mais doloroso, com a rapidez da ausência de emoção. O balouçar da corda que raspa no chão como chicote que flagela a carne mas sem deixar ferida de tão inexorável está já a pele. Viver em esquiva, não em fuga, mas na arte de estar com a guarda alta, capaz de não dar abertura ao adversário, escapar em segundos com reflexos apurados e um ataque feroz às circunstâncias, às possibilidades, aos rotundos "nãos", sem queda no ringue.

Do que foi

Hoje vi o amor da minha vida. 

Na música a Mafalda Veiga pede para «guardar e abraçar tudo o que te dei» e as palavras colam-se-me à pele como dúvidas, pois hoje vi o amor da minha vida, vi-o ao de leve como ao de leve ele e eu, outrora, nos encontrámos. Não houve sequer tempo para nos abraçarmos daquela forma quente e estreita de navegar nos braços de quem se gosta, nem muito para guardar, são memórias demasiado pesadas para serem assumidas. Não nos lembramos um do outro e não há espaço para recordações com um sorriso.
Vi-o e por breves instantes não acordei para ele, não o reconheci sequer. Vi-o, apenas, amparado a quem ele pertence, passei por ele como voo de um anjo sobre o sono de uma criança, com passagem silenciosa, ténue, com carinho e cuidado. Passou, hoje, ele por mim como o encontro de dois estranhos, passámos e não ficámos, sem o dramatismo dos filmes, nem trocas de olhares cúmplices carregados de histórias que ficaram para trás. Foi um cruzamento vazio de significado, o mun…