domingo, 28 de fevereiro de 2010

o homem que matara a música

A luz iluminava cautelosamente a lamina a raspar a pele do rosto ainda novo mas envelhecido no espelho a sua frente. Fazia barba de modo lento, não por medo de cortar-se mas porque de manhã nada conseguia fazer a outro ritmo. Levantava-se maquinalmente com uma dor nas costas, tensão lancinante nos ombros que mal lhe permitia equilibrar-se naqueles primeiros momentos vespertinos.

Em pé cerrava os olhos, deixava cair a cabeça já cansado e buscava no modo de estar alienado forcas para tomar banho e começar mais um dia. Era como se fosse prisioneiro e marcasse na parede a contagem dos dias. A diferença é que a prisão era a sua cabeça, os dias passavam mas não tinha expectativas de liberdade e o crime que cometera fora contra si mesmo.


Com a barba feita, lavou os dentes e em seguida vestiu-se de forma desapegada, como se caminhasse para o vazio. Comeu, por necessidade e não por fome, em silêncio, na cozinha branca e perfeitamente limpa. Não queria acordar a mulher, em paz com o seu sono, nem os gémeos no único momento em que teimavam não gerar o caos.


Fechou os olhos com forca e conteve o dilúvio de emoções. Onde estava a sua vida? Não aquela que sentia ser uma realidade paralela, mas a que traçara na sua mente disciplinada e inconformada?

Haviam ficado para trás as expectativas de viajar, voar pelo mundo para ganhar mais e mais de conhecimento, preencher a curiosidade, observar as pessoas enquanto andam no seu pendular movimento pelas ruas.

Haviam desaparecido os fins-de-semana pelo país, com livros e mapa, roteiros da sua vontade imensa de não estar quieto, de ouvir sons diferentes quer fosse o mar em Sagres, o correr do rio no Douro ou a chuva por entre o verde nos Açores.

A mulher gostava de passear mas gostava mais de ter a casa impecavelmente pronta a fazer inveja aos amigos. Vestia-se a rigor, arranjava os gémeos a preceito e os fins-de-semana pareciam saídos de uma revista de decoração com a rotina das idas dela ao ginásio (e a obrigá-lo a acompanhá-la, coisa que detestava), casa, jardim zoológico, jantares de família, almoços com outros casais e as suas crias a correrem pelo amplo apartamento.

Amava a mulher mas a ideia de ter filhos apanhara-o na curva. Compreendia agora que ela lhe quisera dar sossego, travar aquela ansiedade dos olhos dele. Cansada de poupar para as viagens, surpreendeu-o com a gravidez. "Um filho leva-se para qualquer lado, limitam se alguns gastos mas será quase o mesmo, teremos a vida do costume. Só precisamos de una casa maior", dissera-lhe ela. Nasceram os gémeos e nada foi igual. Talvez, já não a amasse. Porque ela planeara mal a jogada mas mesmo assim estava feliz com a sua ninhada e com a vida que construíra. E ele não conseguia sentir a mesma satisfação.


Pegou no livro e no casaco e fechou a porta. Dirigia-se para o emprego que não gostava. Teimosamente, levava o livro com a vã esperança de conseguir lê-lo à hora de almoço quando conseguisse fugir aos colegas tão desinteressantes como filhos da puta. Tentava com a leitura fugir àquele ambiente contaminado, cheio de sombras negras e de todos os defeitos que as pessoas podem ter. Rotina, mesquinhez, inveja, gritos, prepotência e humilhação. Mas raramente almoçava, por excesso de trabalho ou então não conseguia amainar a alma, com as historias q ouros escreveram, tal era a pressão no peito que sentia, gerada pelo dia a dia laboral.

Entrou no elevador e desejou ser teletransportado. Fugir e não voltar a ter que ir para aquele escritório ou ao supermercado fazer compras mensais ou ter que fazer conversas sobre o melhor colégio com outros pais, que em tempos foram simplesmente amigos.

Sentia-se sem ar, sem espaço, sem alegria. Sem ninguém que o escutasse. Sentia-se banal, sem que nele reparassem. Como uma imagem quase apagada de uma folha de desenho.

Ouviu a música de elevador e percebeu que havia meses que não ligava o iPod. Ele, que havia consumido música em doses massivas, perdera o gosto. Perdera a necessidade. A tomada de consciência foi como um pontapé no peito. Matara a música na sua vida. Sem música, uma pessoa perde o sentido de estar, de ser. Matar a música, era sinal que estava a definhar.

Sentado no carro, sem forca para ligar o rádio, deixou a cabeça cair no volante como um cliché e abateram-se sobre ele todas as dores invisíveis. Onde havia errado? Onde falhara?


Mentalmente, marcado pela inconstância e pela solidão, insatisfeito e destruído, accionou o seu mecanismo de defesa e ligou a ignição. Ia começar mais um dia. Amanha seria um bom dia para recomeçar, pensou. Era mentira, sabia-o.

Saiu da garagem e quase chorava. Era o homem que matara a música. E a sua vontade de ter opções.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Quando...

Quando ris, o mundo pára. O meu mundo. O único que conhece. No qual me sentia segura. Agora duvido. Fraquejo. Hesito. Mas sigo em frente porque algures estás tu e porque não posso ficar aqui parada quando te posso encontrar.

Quando ris, iluminas a sala por muito escura que esteja a noite. Por muito frio que seja o vazio que nela reina, rapidamente, é colorido com a expressão que de ti sai com a força destruidora do teu sorriso.

Quando ris, apetece-me reter-te assim. Colar-me a ti e partilhar essa tua alegria. Deixar que a tua música me console o silêncio de outros momentos, deixar-me inspirar pela forma como seduzes o som que enche o pouco espaço livre que há entre nós. Quando me tocas, a lua baila lá em cima tão perto de nós, revelando o meu rosto perdido em ti, rosto descoberto pelo cabelo que afastas de modo decidido. Sinto que esse toque me anestesia o corpo que fica preso àquele segundo em que renovamos o olhar.


Quando me abraças, o teu calor contagia-me a vontade e eu quero sempre mais, perder-me e vaguear pelas horas, no ponto incerto da nossa geografia. Fazemos o nosso esconderijo e la não sinto mais nada, deixo a paisagem que nem vejo. Quando te cansas, procuras o colo para te reconfortar a exaustão que te dá prazer. Que confessas num descuido leviano e que logo tentas esconder novamente.


Quando a lua beija o rio num espelho de prata e a música rola devagar, o teu peito bate à pressa como se fugisse do olhar quente que deposito na viagem guiada a ti em busca de uma chama, de uma praia, de uma estrela que possa seguir mas encontro uma noite no deserto, pacifica, em profundo silencio e tão aconchegante que o mundo cessa sem respirar.


Quando a madrugada nasce, espreguiças o olhar no horizonte e devolves-me ao meu lado da vida ainda com os dedos no meu cabelo, presos por fios de seda que te acariciam o peito. Quando do sono desperto, creio que me encontrei algures e que me cruzar contigo será sempre um ponto de partida.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

All we need is a bra...

Desde tempos remotos, sou louca por lingerie. Ainda me lembro do 1º soutien lindo, azul bébé.

Como fanática, desconfio de 2 tipos de pessoas: 1) as senhoras gajas que não ligam nenhuma à roupa interior (e já não falo das que não usam!) e combinam soutien preto com cuecas violeta com flores amarelas (PAVOR); 2) homens que não oferecem lingerie, porque não sabem escolher, não percebem tamanhos ou ignoram a importância deste item, esquecendo-se que antes de 1 soutien saltar, esteve naquele corpo, portanto é mt importante para a dona do corpo em questão.

No 1º caso, meninas ... a lingerie é a coisa mais próxima do vosso ser. Ainda que deva ser confortável, tem que ser gira. Não precisa de ser Agent Provocateur; ou estilo prostituta francesa do inicio do século XX mas que seja ... gira! Arranjadinha e limpa, não é suficiente. GIRA. Não por quem venha a vê-la, mas por vaidade pessoal.
No 2º caso, um homem que não compra / oferece lingerie é um homem sem sensibilidade. Ponto.
Para resolver este drama, imaginem onde vou estar 2ª feira mal saia do sitio a que podemos chamar "trabalho"??? http://damadecopas.pt/
Vi na Time Out e acho que vai ser a pura da loucura. Não só há uma casa mobilada com lingerie como me vão ajudar a descobrir qual, de facto, é o melhor soutien pra moi même.
Soando a imensamente fútil (e sendo-me exactamente igual, ou seja, who cares?!), depois da ida ao cabeleireiro, esta antecipação de uma sensação de empowerment é um brutal KIKA *
*(kick in the ass, como diria a tonta da Professora de RH, a pior das professoras que já tive e que deve usar a mais pavorosa das lingeries por baixo do vestido de Alice no Pais das Maravilhas que ela utiliza nas acções de motivação e change management das empresas que a contratam... o ISCTE tem destas coisas. Tão fraquinha aquela senhora).
Pressupondo que o meu dia vai ser uma amostra de stress e raiva, parece-me lindamente descomprimir no meio da beleza e da leveza do toque dos tecidos. Depois dou o meu parecer.
De qualquer, já sabem, não há desculpa. Nem para gajas, nem para gajos. E há vales de oferta. MARAVILHA.
Bom fim de semana
ASS: Gaja em êxtase!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Portugal: encerramos estabelecimento por não haver opções de salvação.

Lia outro dia numa revista a história / livro de uma americana recuperada de cancro que combatia a tirania do optimismo. Dizia ela que enquanto esteve doente, família, amigos e médicos queriam a forca que ela de animasse, pensasse positivo e reagisse com animo. E ela pensava: "dasse,  estou doente, cansada dos tratamentos e ainda tenho que fazer o esforço suplementar de me sentir como não me sinto por pressão dos outros?". Na sua opinião ninguém, por mt que goste da pessoa não optimista, quer estar próximo de alguém que não esteja sempre em modo "I love to be alive". 


Ler o texto fez-me sentir, por fim, compreendida. Salve!!!


 Mas o tema de hoje e outro: como reagir com animo e energia ao que se passa no castelo de cartas, chamado Portugal? Não sendo nacionalista, sinto-me confusa: somos europeus? ou estamos atropelados entre África e a América latina? 


Temos:

- 1 candidato a lider do Psd que e alto quadro de uma empresa na qual conviveu com 1 administrador acusado de de subornar o antigo professor de jose Sócrates na independente, que também era assessor externo no MAI de Armando vara.


- o PSD que esta com lider demissionária desde outubro e que tem a capacidade de fazer a oposição de uma criança de 4 anos: a base da birra e de querer roubar os brinquedos dos outros meninos. 


- um jornal, paladino da verdade e da liberdade de expressão, publica escutas que violam o segredo de justiça, liderando um movimento de justiça tipo milícia: de ninguém age contra o plano de controlo dos media, agimos nos. Parabéns, sr. Saraiva. Foi bonito o pais todo ver em directo o desrespeito por uma ordem do tribunal, ignorando o dia inteiro o oficial de justiça que tentava entregar a providencia cautelar.

Com a autoimagem de que seriam os herdeiros do jornalismo watergate (triste deslumbramento), violaram as ordens do tribunal e arautos da verdade colocaram o jornal na rua. Esgotou. Triste pais. Porém, em terras de petróleo, o Sol fez de conta que a liberdade de expressão tem outros conceitos a 8.000 km de distancia, vergou-se a censura e assobiou pro' ar. Tenham vergonha. Eu tenho. De existir no pais em que pago impostos um jornalismo tão reles.


- a grande lutadora da liberdade de informação meteu aproveitou para espetar a farpa no boi desaustinado. Mas não convinha antes ver bem quem paga agora as contas la de casa? São tudo "bons rapazes", certo?


- mais de 1 milhão de euros por ano a ex jota? Só em terra de loucos! 


- vara de volta ao BCP, os homens do presidente e as suas conspirações estivais fraquitas, o rendeiro a passear como se nada fosse pelos restaurantes do guincho (sabendo que fez perder dinheiro a pessoas que querem que não se saiba pois implica que fecharam os olhos ao modo como os lucros chegavam, apesar de saberem que mt legal não seria), o sucateiro que comprou quem se vende com mt menos mérito que 1 puta de estrada.


- o polvo verde que domina a teia empresarial, ca e fora, escolhe lobbistas pra lugares chave em grandes companhias, domina os media não públicos, e perpetua o nome da santíssima trindade. Quem governa Portugal?  


- os anos de julgamento da casa pia, dinheiro que sai do erário publico, em que a montanha vai parir um mini mousse.


- e Sócrates:  que já não tem mais costas para alargar... o exame de ingles técnico ao fim de semana, a licenciatura mal explicada, os amigos mt mal escolhidos, os boys com mau habito de contarem a vida toda ao telemóvel (falta mundo a esta merda de elite político-empresarial que nem filmes vêem), a mania de não gostar que os jornalistas digam mal dele (estou consigo, os jornalistas são maus mas ninguém os quer melhores não vale pena pressiona los porque, apesar de odiando-se uns aos outros, agem com reacção corporativo-sindicalista). 

Homem, demita-se. Ou pra ser preso (as if...) ou pra ter vida calma. Este pais esta alucinado, preso aos Idolos e a ida a Africa do Sul, precisa de uma betoneira. Ou de vender o stock e cada 1 ir a sua vida. Uma grande parte há esta em Angola, são menos a sair. 

Eu não digo pra onde vou. Estou farta de tugas, livra!     

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Daí que digam que as mulheres são umas cabras umas pra' as outras...

Esteve fim de semana foi uma treta de neurose mas no fim de semana passado, estando eu fora de Lisboa, num sitio fantástico, mas já sem nada para ler, peguei na "literatura" de gajo que jazia do outro lado da cama e, por entre Playboys, Maxmen e afins, encontrei uma oldie que diz tudo sobre o titulo deste misero texto.
Regressemos à MaxMen, em Outubro de 2009, crónica da Margarida Rebelo Pinto, "Guia para Divorciados", uma espécie de manual de sobrevivência para homens que acabaram de divorciar-se.
A certa altura, a douta cronista, enuncia 5 regras para Não Voltar a Cair Noutra (até nem é uma má ideia, em termos pedagógicos). A coisa vai mais ou menos assim, e passo a citar:
1) "Não se interessem por mulheres desocupadas porque elas têm apenas uma missão: casar com um homem rico".
Dando de barato algum realismo cientifico da teoria, a autora também é um bocado desocupada e, definitivamente, as suas protagonistas, não fazem um boi. Portanto, esta teoria é-lhe fácil de enunciar.
2) "Não saiam com mulheres com mais de 30 anos que nunca casaram antes: não pensam noutra coisa".
Aqui, começo a afinar e a pensar no Sá Pinto. Oh querida, fale por si!!!
Isto é um esterótipo deveras cretino e indutor de erros básicos. É que há gajas que não precisam de casar e estar constantemente acompanhadas de gajo (para grande espanto da autora, certamente) para não se sentirem carentes. Há mulheres com mais de 30 anos que sabem o que valem e não será o casamento que lhes trará a felicidade. Claro que para uma "menina bem de familia católica do Restelo" deve ser dificil de entender isto.
3) Não vá para a cama com uma namorada nova sem protecção (excelente conselho).
4) [e aqui é que dá vontade de realmente Sá-pintar a MRP]: "Se ela diz que está a tomar a pilula, peça para ver a caixa."
Desculpe???!!! Pode repetir? è que parei na estupidez machista e ainda não recuperei! Que merda de comentário é este?
5) "Se ela não mostrar a caixa, acabe com ela antes que já seja tarde".
Não há comentários possiveis. Já se viu a profundidade do pensamento de MRP. É uma questão de ver-se ao espelho nos costumes, não?
Não querendo acreditar que sejamos umas cabras umas pra' outras, mas com gajas assim? Porra, mais vale ser gajo!!!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

esquizofrenia

Uma pessoa vai ali e já vem e, de repente, ocorre um desfile de paragens cerebrais, invariavelmente estranhas. A Gripe A até pode ter sido uma fraude mas de facto há qualquer coisa no ar, um vírus de tontice aguda, a afectar-nos.


Ainda não estou recomposta de ver o meu “adorado” Mats Magnunson, apanhado pela PdI (ou grávido de trigémeos), num belíssimo espectáculo de futebol, só possível na Catedral. Com uma dupla cinco estrelas: Nuno Gomes & Micoli. Mas vamos a isto...

Mas começamos logo bem, tipo piada assim de mau gosto… Portugal empresta €140 milhões a Angola.

- Primeiro, temos €140 milhões em caixa, quanto mais para emprestar?
- Segundo, o que vai a Isabel dos Santos comprar em Portugal com esse dinheiro?
- Terceiro, o punch line, se emprestamos dinheiro a terceiros para esses terceiros nos comprarem, somos o quê: Credores ou Garantia?
- Por fim, se formos comprados, nem juros nem as dívidas são saldadas, certo?


É genial. Nem o Maddoff se lembraria de algo sim! Mas é sempre bom sermos generosos dado que fomos abençoados pelo petróleo e pelos diamantes e devemos ajudar um país em que a pobreza subsiste … ai, espera, nós não temos nada isso. Mas parece, não parece? Claro que há umas quantas empresas tugas que vão ganhar à conta disto, mas não serão nem os portugueses nem os angolanos a ganhar. Belo negócio, não?


A TAP decidiu dar aulas de ética - que pelos vistos está em vias de não haver - (e de como usar o Facebook, aparentemente) a uns quantos idiotas que decidiram fazer comentários ofensivos porque não foi cumprido o código “da profissão” de não voarem em primeira classe (alegadamente, havendo vagas), sendo forçados a “viajar na penúltima fila”. Uma obra-prima de estupidez, má educação e falta de profissionalismo. Onde os senhores queixosos se sentaram, por falta de cortesia do comandante do voo, viajam por norma os passageiros que pagam os seus bilhetes. Independentemente, do código interno, o que choca é o facto como eles falam dos sítios onde se sentaram. Por birra do comandante, ou não. É um nível de arrogância tal, que dá pena a pequenez, pra’ mais são temas do “forno” interno da TAP e não para discutir no FB. Mereciam uma visita do Sá Pinto.


O Porto, depois de ter posto o Ruben Micael a tomar Centrum para melhorar a memória (pena não lhe darem uns comprimidos que o ponham a falar de uma maneira que se entenda), ganhou ontem 0-4 ao Nacional, quer dizer, ganhou a uma equipa que não existia. Tipo jogar Playstation sozinhos. Quase aposto que o penalty foi feito de propósito só para justificar que havia uma segunda equipa em campo.


Pelo meio disto, e dos 3-1 do Glorioso, estreou com pompa e circunstância, o novo filme do António Pedro Vasconcelos. Não vi, não vou ver e logo não posso comentar. Não obstante, ao que parece a "actriz" principal chegou 30 minutos depois da hora marcada para o começo do filme. Ora, ou temos diva ou, apesar da publicidade de que se vive “no estrangeiro”, é só mesmo publicidade porque os maus hábitos de ser-se português mantêm-se.

Uma última nota: fiz anos há uma semana. Não sei se é da idade, mas a história do Haiti afectou-me quando, no meio do stress idiota das nossas vidas idiotas, me apercebi da dimensão da coisa. Miséria, fome, desespero, situação de crise são realidades, infelizmente diárias em diferentes partes do mundo. Mas quando num país, limitado pela pobreza, corrupção e instabilidade política, anos de ditadura e criminalidade, é abalado pela Natureza desta forma, não há palavras que possam amenizar a sensação de murro no estômago. Mesmo sendo um país pobre, só o facto de estar colocado geograficamente numa área de risco contínuo, e não haver um sacana de plano de emergência, é atordoante. O actual primeiro-ministro devia ser preso por incompetência assassina: pode não ter culpa do que “herdou” mas tem culpa de não ter estabelecido um programa de intervenção para situação destas, sempre iminente.

Ver famílias arrasadas e de luto, a querer dar os filhos aos estrangeiros que chegaram ao país, por não terem condições de lhes dar comida, faz-nos relativizar tudo. Faz-nos pensar que não sabemos aproveitar o que temos. Faz-nos querer mandar à merda medos e grilhetas e ser tentativamente felizes.

Por favor, façam-no. E obriguem-me a fazê-lo.