Avançar para o conteúdo principal

Do Agora


Agora dizes que fui um ponto de inflexão. Que fui quem parou o jogo de máscaras. Que te antecipou as jogadas e apanhou o bluff. Que te leu. Despiu todas as estratégias de força. Que te desmontou as peças. Que te reconstruiu com mestria. Que fui eu que vi as vulnerabilidades e as transformei em setas hábeis. Que te injectou confiança num chuto de força com coragem.

Agora pedes para voltar. Que percebeste o quão fácil era seres tu aqui. Que neste território a agressividade era um estímulo. A paixão, avassaladora e orientada à transformação. Contínua. Que nenhum dia era igual ao outro. Que o desafio era estar à altura do desafio. Que as emoções ecoavam pelas paredes de tal a intensidade como queria viver o arrebatamento que nos unia. Que essa propulsão era lenha para a tua vontade de te entregares.

Agora queres que eu esqueça. Que antes nada disso te interessou. Que naqueles dias buscavas algo menos profundo para as noites. Ou algo mais dentro das linhas. Ou algo mais perfeito. Ou mais encaixado com as normas. Ou menos confidente. Menos cúmplice. Menos confiante. Menos receosa de estar só. Por tal tão consciente de que queria estar a dois.

Agora sabes que a convulsão cruzada com a atitude de quem questiona tudo é um salto de fé, não uma arma carregada. Que desperdiçaste amizade e afecto e tesão porque não era o momento, porque nunca é o momento. E porque eram muitas dimensões quando se está habituado a viver em cilos. E porque orgasmo da realidade era tão demais para quem nunca vivera assim.

Agora desejas que te ouça. Que te leia as mensagens e te responda com esperança. Que te abrace com saudade. Que te diga que vamos fugir no sofá e voltar só quando o corpo ceder. Que compreenda, que acarinhe. Que ria com todo o meu olhar posto em ti.


Agora tentas de mim algo que não consigo. Em mim existe tudo mas voltar atrás, retomar percursos onde me deixaram cair, fazer caminhos de terra batida onde coloquei toda a tracção sem medo de arriscar apenas para ficar sozinha na corrida, não é um crime que me permita.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Doidinha para lhes pôr a mão

I nverno em Madrid,  C. J. Sansom   1940.  Madrid encontra-se em ruínas, a fome e a miséria imperam, e uma turba de espiões das grandes potências mundiais invade a cidade, enquanto Franco pondera juntar-se a Hitler na Segunda Guerra Mundial. É nesse mundo de incertezas que desembarca Harry Brett, um ex-soldado recrutado pelos serviços secretos britânicos. A sua missão é descobrir se os negócios obscuros de um antigo companheiro de escola, Sandy Forsyth, envolvem uma reserva de ouro que fortalecerá o governo de Franco.  Entretanto, Barbara Clare, antiga enfermeira da Cruz Vermelha e namorada de Sandy, também se propõe a uma missão secreta: encontrar o ex-amante, Bernier Piper, amigo de Harry e comunista voluntário das Brigadas Internacionais desaparecido nos campos sangrentos da Batalha do Jarama. Quatro vidas cruzadas num jogo perigoso de amor e morte, os segredos e subterfúgios da Espanha de Franco, um romance que nos fala sobre a dificuldade de fazer escolhas nu...

Dos elásticos

Para onde vão as sentimentos que desaparecem? Para o mesmo sítio que as meias e os batons do cieiro e os isqueiros? Onde derivam elásticos de cabelo e tampas de tupperwares? Saberão os seus hóspedes como os apagam quando partem? Memória reset?  Paira sobre nós um céu falso com correntes de sentimentos que se perderam sem que alguém os tentasse raptar, para os quais não houve esforço de resgate, e esse peso esmaga-nos, castiga-nos. Nega-nos que sintamos.  Porque maltratamos os sentimentos que abandonamos. É uma punição em perpétua retroalimentação.  Por isso não percebemos, escapamos à ausência de matéria que nos faz falta.

bloggar

A semana passada tive uma amena e saudável discussão com outra blogger (um espectáculo de pessoa, por sinal) sobre blogs e publicidade, tudo por causa de uma quantas bloggers que não se assumindo como "fazedoras" de publicidade, curiosamente , de repente, em dado momento, todas consomem os mesmos produtos aos quais reconhecem, por coincidência, as mesmas qualidades. Geralmente, aquelas que aparecem nos press release ou nos cds que acompanham as oferendas.  Sempre disse que não fazia publicidade. Tudo o que comento são produtos que uso (comprando), que experimentei ou que gostava de usar. Felizmente, hoje em dia tenho acesso a um paraíso de produtos que tomara a muita fahionista wannabe  e nem mesmo assim carrego o blog com todo o manancial que tenho à disposição.  Também ninguém me pede. Se eu escrever qualquer coisa, sobre algo que eu gosto mesmo muito, agradecem-me  mas não faço parte do Big Bloggers Book. Choca-me? Não. Quem sou eu para tal? Quem sou eu? Pessoa...