Avançar para o conteúdo principal

Da cicatriz devassa




O oráculo concluiu que cicatrizo rápido, que recupero célere das mazelas, com capacidade de regeneração qual heroína de filme. Reconstruo a máquina como se não houvera sofrido danos e sigo em frente, levando por arrasto o que haja no caminho.

Essa disponibilidade da derme, do corpo, da alma, em sarar será a razão pela qual sempre que te vejo, acedo. Sempre que te acercas e derrapas os dedos ao de leve pela nuca e pela espinha, atiro o pescoço para trás, fecho os olhos e deixo, sem duvidas, que me dispas. A roupa e a força.

E começa o jogo. A dança. A batalha. A estratégia. A nudez completa versus o ritmo lento. A intimidade total revelada sob os teus lábios, o não querer dizimado pelas minhas pernas que te prendem a mim e nos embalam sem palavras. Sem amor. Olhos nos olhos, pacto de luxúria e suor, costas arranhadas, ombros mordidos para calar quando estão a vir os gemidos.


O tempo passa contigo em mim. Sem cerimónias, ambos vitoriosos pelo que damos e pelo que recebemos. Tanto, êxtase frenético, espiral sem limites. Movimentos eróticos que não pedem licença nem perdão. Não há nada que nos absolva desta devassidão que nos assoma.

Apenas querer, mais e mais, como se fosse sempre uma nova exploração quando não há recanto do meu corpo, do teu corpo, que não seja já território conhecido, dominado, apropriado.

Só a exaustão nos vence. A luz do dia já ameaça quando saio, cabelo despenteado, sem escova possível que o dome, rosto impenetrável como se nada houvera passado, pulsação acelerada.


Ferida aberta começava a cicatrizar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Das pequenas coisas

Talvez sejam as pequenas coisas. Como uma música que se ouve por acaso e se torna uma descoberta que nos marca um trânsito. Como um gelado fora de horas e com o sabor simplesmente certo de caramelo tal qual na nossa infância. Como aquele instante rápido entre fazer-nos à onda e o mar que nos toma por completo, nos restitui a energia e nos devolve ao mundo.
Terão que ser as pequenas coisas. A partir delas, tudo se enreda e o equilibro pesa para o complicado. Sinuosos os caminhos para que nos encontremos. Doloroso o andamento que faz que nos afastemos mais do que estejamos próximos mesmo quando tudo aponta para que haja uma cumplicidade e uma ligação súbita mas forte e consistente.
O toque é denunciador. Desmantela as forças e faz sucumbir com tamanho ardor. O beijo que transporta silêncio, paz, meta. O abraço que acolhe uma gargalhada e o estranho sentido de que tudo está bem.
São estas pequenas coisas. Que são fáceis e leves e perenes. Tão frágeis. Acabam tão depressa. Nada há-de ser …

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…

Do acosso

Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência. O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas. 
A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado.
E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade. 
A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.