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O post que não vais ler

Não tem sido fácil. Não trago a cura nas palavras. Não vai deixar de ser dificil.

São tantas as coisas que não consigo dizer, desenhar, escrever. Estão encarceradas em mim, atropelam-me os pensamentos, andam à luta comigo. E nem me dão sossego nem eu as mato. 

Disseste-me que não conseguia lidar com a felicidade. Comentário certeiro como uma bala. Directo ao coração. Não deixa de ser verdade.

Tenho andado com um feitio filho da puta. Só me apetece partir o que me aparece à frente, pontapear pessoas que me irritam, libertar o mundo dos idiotas que o estragam. Salvar alguém. Salvar-me a mim! Só eu o posso fazer. Não vale a pena mais alguém tentar. 

Mas não consigo. Porque tudo o que queria não se concretizou, ou correu mal ou já não vou a tempo. E não consigo reinventar-me. Buscar opções. E as minhas ancoras são mesmo importantes para mim, lamento, não consigo abandoná-las. Por muito que queiras. Vou sempre querer viajar e andar de compras em detrimento de outras variáveis. Não consigo conviver com a necessidade de um novo "eu" nem sou capaz de criativamente pensar o que quero, posso e sou capaz de fazer. 

Agradeço a tua paciência. Não é por isso que vou aceitar com placidez que falhes, propositadamente, no que me dá alegria. Odeio que me espicaces à espera que eu reaja e mude. Não sou um cavalo. As tuas esporas só me magoam. 

Ambos temos que começar por nós. Não sou só eu. Se eu aceitar como um problema só meu, mais um para juntar à lista, estou a submeter-me à tua vontade. E não é assim que se está a dois. Anulo a minha felicidade para estar de bem com a tua? 

Os sentimentos não se apagam. E não se deitam fora, com facilidade. Temos caminho já feito, tanta estrada já feita. Temos que fazer a curva mais complicada, a dois. Consegues?







Comentários

Tigrão disse…
Mais do que conseguir, é o que quero.
Há no entanto, tantas coisas a emendar, a remendar, a inovar. ´
O preocupante após tanta estrada é haver ainda tanto caminho por palmilhar mas a "meta" aparecer já ali...

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