Avançar para o conteúdo principal

"Nádegas é importantíssimo."

No Facebook, calhou-me como poema do Vinicius que mais se adapta á minha pessoa, este "Receita de Mulher".

Ora, parece-me um bocadinho machista mas o velhote deve ter visto tanta bunda a passar enquanto mamava chopes no boteco de ipanema que ficou assim com a pica toda pelo pormenor tao explicito. Pelo menos nao diz que a Mulher cozinha a janta, limpa a casa de alto a baixo e ainda irá parir a herança genética, varias vezes de preferencia (e ficando igual, corpinho todo sarado!).

Tem partes que são um ode delicado à fêmea, é um facto, mas o raio do homem era exigente pra caraças!!!

As muito feias que me perdoem Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.
É preciso Que tudo isso seja belo.
É preciso que súbito Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche No olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso Que seja tudo belo e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços Alguma coisa além da carne: que se os toque Como no âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-me dizer-vos Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem Com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.
Olhos então Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente.
Uma boca Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida A mulher se alteie em cálice, e que seus seios Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos De forma que a cabeça dê por vezes a impressão De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre Flores sem mistério.
Pés e mãos devem conter elementos góticos Discretos.
A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras Do primeiro grau.
Os olhos, que sejam de preferencia grandes E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos Ao abri-los ela não estará mais presente Com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha; parta, não vá E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber O fel da dúvida.
Oh, sobretudo Que ela não perca nunca, não importa em que mundo Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre O impossível perfume; e destile sempre O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A importância de se chamar Candidato

Numa altura em que as empresas recorrem cada vez mais às redes sociais para procurar candidatos a postos de trabalho (89%) e que 65% por cento é bem-sucedida, conseguindo contratações satisfatórias (Fonte: PR Comunicácion) convinha que as empresas de recrutamento e de executive search pensassem um bocadinho mais sobre o seu modus operandi.


Falo por experiência, por conhecimento e por não ter conseguido efectivar mudanças. 

O headhunter da velha guarda, armado em doutrina maquiavélica, que nunca leu, perspectiva o candidato como um meio para atingir um fim: facturar.  O candidato só serve enquanto servir os interesses do projecto. A satisfação do cliente é posta à frente de tudo e todos. Esta sobranceira linha de raciocínio,  a frio, tem alguma razão de ser. Quem paga as contas são os clientes. Como metodologia, é um erro crasso.
Num mercado concorrencial, um factor claramente diferenciador é a relação que se estabelece entre um consultor e os seus candidatos, pelo menos com aqueles que a…

gaja à beira da loucura

Isto pode paracer a demência absoluta mas já estou por tudo. A Alexandra Solnado (isso mesmo, este post vai por esse caminho...) dizia numa entrevista, há umas semanas, ao promover o seu mais recente "livro" que a maioria das pessoas que lhe aparecem para consultas, são pessoas doentes - jura?!
Agora, a sério, as pessoas padecem de doenças fisicas e, no seu desespero, que nem é discutivel porque cada um saberá o que se sente quando se chega a esse patamar, procuram ajuda ou conforto no projecto da Alexandra Solnado (é assim que se chama). Posto isto, explicava a Alexandra Solnado que as doenças são, não obstante, reflexos de outros problemas mais antigos ou e a outros níveis. Não me recordo dos exemplos que ela dava mas era algo como pessoas que tinham tido muitos desgostos e uma vida marcada pela tristeza, desenvolviam uma doença grave em especifico, localizada numa área do corpo em particular. 
Ora, e dando o beneficio da duvida a esta teoria (pois que temos a perder?), gosta…

Inesperadamente, a semana passada

Uns dias bons.
O  25 de Abril. Comer caracóis, os primeiros deste ano. Passear e trabalhar no Porto, deambular nos Clérigos. Diariamente, sessões de The Newsroom e Melhor do Que Falecer. O Pedro Mexia e os ferrinhos na emissão especial do Governo Sombra (e a banda sonora e a Manuela Azevedo e as citações certeiras de Salazar bem seleccionadas por Ricardo Araujo Pereira). O Benfica, tão grande! Opá, o Benfica ❤️