quinta-feira, 28 de julho de 2011

Nada.

Há uns dias, deitada no sofá ancorada no silêncio bom, o Moço questionava-me porque estava tensa e desalentada (para lá de todos os motivos naturais, mas enfim). Dado que por norma  sou acusada de falar demais, e com ritmo de palavras por minuto "assustador"(e alto! crime de lesa pátria para várias pessoas), aparentemente quando estou em mónica-zen, se gera uma onda de preocupação brutal, tipo "está viva?". E parte dos homens têm alguma dificuldade de entender o que quer dizer "Nada" num determinado contexto.

Aos meus "nada", ele insistia. E, pronto, o reactor nuclear arrancou. Em força. Parece que fui assaltada por palavras que existem no dicionário e se juntaram para formular frases que eu ia debitando, de modo assustadoramente calmo.

Basicamente, estou cansada. Ou sem paciência. Ou ambas. Sei que estou farta. De merdas. De chatices. De pessoas cretinas. De me levantar. De ter que tomar banho. De ter que vestir algo que não seja o pijama. Do calor. De comer. De ter fome e, logo, ter que comer. De ter que socializar. De me esforçar diariamente par acordar, para descer a rua, para falar com pessoas.

Dou por mim, nas raras ocasiões em que estou em grupo, fora de casa, a isolar-me mental e auditivamente. Simplesmente, desligo. Não é por mal. Em determinadas circunstâncias a conversa até é interessante; mas na maioria das vezes, estou "nem aí". Mesmo simpatizando com a pessoa ou pessoas em questão. Agrava-se, claro, quando não acho piada alguma ao interlocutor.

É a crise, são os Andrades, é o 4-4-2, é a TSU, são os hotéis cheios, os miúdos, os colégios, é o jogging (está de moda, não HÁ ninguém que não corra, não meça os resultados com a porra da coisinha da Nike e do Iphone, mais a maratona de Nova Iorque - paga-se, sabiam, ó espertos!?-, não há cu que aguente a evangelização, até parece que é um segredo bem guardado durante séculos as vantagens de correr), são os saldos da Zara, é o falso discurso da contenção mas tudo a comprar, são os 500 mil programas de culinária, são os Gordos ("e, tu, quando começas a ir ao ginásio?" - pagas tu, ó 309º idiota que me faz a pergunta ou vou para a estrada nacional dar o lombo?; "e caminhadas, não queres vir?" - para ouvir passarinhos? Da-se), são as séries fantásticas que se descobre (gosto especialmente quando se fala da pachachada da Anatomia de Grey ou da palermice de Uma Família Muito Moderna), é o emprego muito exigente, o chefe que é uma besta (amigos, a sério, querem discutir esse tema comigo?) ... É uma dor de cabeça... E quando alguém se lembra de falar de livros: uns, irritam-me porque só lêem coisas de carneirada; outros, irritam-me pela superioridade intelectual de quem não lê Candace Bushnell. Ou seja, o universo divide-se entre o FdP do Nicholas Sparks e acólitos; e a Ilíada de Homero (que duvido que haja muitos que tenham lido na escola).

Acresce a rotina: são sempre os mesmos locais, todas as semanas, fazer qualquer coisa diferente é um drama. Ou é vira-o-disco-e-toca-o-mesmo ou nada que me faça sair do sofá. Até ir ao cinema é uma dor. É tudo igual. ABORRECIDO!!!

Percebem, não é nada em particular ou alguém em especifico. Há pessoas com quem gosto verdadeiramente estar mas começo a "viajar" na boa, se não fizer um esforço para me manter ligada à terra; outras vezes faço um esforço para não dar uma resposta torta, para simplesmente agarrar-me ao telemóvel e ignorar quem passa.

Há uma apatia que baixou em mim que me dá poucas energias.

Uma delas é claramente já não aceitar que me tomem como parva. Eu trato as pessoas com respeito. Exijo o mesmo. Cancelo "n" planos? Verdade. Mas cancelo-os porque não estou capaz de sair de casa. Nem com 100 drunfes. Não cancelo porque me aparece algo melhor para fazer. Nunca. Acho feio. também não vou muito à bola com a amiga X ter um discurso comigo mas se estamos com a amiga Y, para lhe agradar, toda eu sou um defeito só.  Depois há os que não ligam, não querem aparecer, têm sempre muitos planos ...  é pá temos pena, siga. Amiga de equipa B, esqueçam lá isso.

Também sou particularmente susceptivel ao discurso: "deixa de ser Calimero, há vidas piores, tens muita sorte". Vamos por partes, basto eu achar que a minha vida é uma merda para isso ser suficiente, ok? Basta eu não saber como mudar ou mudar para o quê, que tal já é uma dor que me assiste. Ponto 2: eu não me vou queixar. Eu não ligo à "audiência" com lamúrias. Até sou bastante comedida. Não falo, ponto. Se insistem que eu desabafe, disseque, analise para depois me atirarem à cara argumentos cliché? Menos. Ponto 3: também há vida piores e mesmo assim há quem se queixe dos preços das viagens à Grécia, do gajo que afinal era infiel ou do colégio X não ter vagas para os "piquenos". Porém, quando são dramas destes ninguém se lembra da fome na Somália ou a miséria na periferia de Lisboa.

As minhas (parcas) energias são gastas a eliminar egoismos à minha volta. Estou a ser egoista, claro, mas com o meu posso eu bem e assumo-o. Até porque me fartei de dar para o colectivo com o retorno que se sabe.

As restantes forças são dedicadas a estar verdadeiramente bem com pessoas de quem gosto e que merecem. Em esforço, mas um esforço que faço com gosto.


Em suma, apatia, impaciência, cansaço e aborrecimento. Não vale a pena insistirem perante um "Nada". Habilitam-se!


2 comentários:

makejetomosso disse...

Uma grande Nada. Ponto 3: também há vida piores. Sim, mas quanto a isso eu também costumo dizer que com o mal dos outros posso eu bem, ou de outra forma, de que me serve saber que há outros bem piores que eu? Não consigo ganhar ânimo com a desgraça alheia

monica disse...

Bull's eye, makejetomosso