Avançar para o conteúdo principal

Como nós somos

No Facebook, um senhor inteligente lançou uma questão pertinente. Queixava-se ele de que, observando os condutores, no seu caminho casa-trabalho, em poucos minutos tinha observado 5 pessoas a conduzir e a falar ao telefone (ODEIO, é das coisas que menos suporto nas pessoas!).

Ao falar com uma amiga, apeteceu-me apertá-la com mimo entre os braços, retirando-lhe parte da dor de ter assumido uma relação com um gajo egocêntrico, mentiroso, que geriu o andamento da coisa à medida dos seus interesses e caprichos. 

O que uma coisa tem a ver com a outra? TUDO. 

Ambas situações encaixam na minha ideia de que, fundamentalmente, somos (ou nos fomos transformando) uma sociedade altamente egoísta. Centrá-mo-nos no "Eu" e perdemos a noção do "Nós". Somos seres individualistas mesmo quando vivemos em comunidade ou estamos em família. 

Daí a falta de respeito pelo outro. 

Eu quero / preciso falar ao telefone enquanto conduzo, não me interessa o perigo dos outros e a lei comum a todos. Quando estamos numa relação, o "eu" tende a querer sobrepor-se e as não cedências ou o empenho (necessário) que dá trabalho, leva às separaçoes porque cada uma das partes "puxa para o seu lado" e não lhe apetece a trabalheira de ter objectivos comuns. Daí, também, o modo como lixamos e somos lixados no local de trabalho; ou as disputas tontas com tios,  irmãos ou  primos; ou a falta de civismo para quem é vizinho, ou partilha a mesma praia, etc. Primeiro está o "eu". 

Como filha única (com uma irmã à distância, tema que não interessa para agora), a fama de egoísta já a tenho e, algumas vezes, dou-lhe uso. Mas há uma diferença entre a auto-protecção do egoismo e o modus operandi da egotrip

Ilustrando com um exemplo concreto, que me delicia pela perversidade incoerente da coisa. No sitio onde eu vivo há uma tendência para que parte dos moradores achem que isto é o Melrose Place mas sem a piscina. São festas nas casas dos vizinhos, são confraternizações nocturnas aproveitando o clima quente, são encontros espontâneos pós-praia com pizzas mandadas vir, são jantares de convivio, são romances de cama, são beer mobs. Até parece que vai haver festa de Santos Populares (menos, tão menos!). 

Catita, não é? Porém, depois temos música em altos berros às 8 da manhã; berbequins pela noite dentro; cinza e beatas atiradas pelas janelas sem sequer olhar para quem pode eventualmente estar a passar; elevadores imundos depois de uma festa; condução contra-mão na garagem "na maior"; nem um "bom dia" ou "boa tarde" quando se entra ou se sai do elevador: num lugar de estacionamento está um carro, uma bicicleta, uma mota, calhando uma carroça, ocupando espaço indevido; se não se tivesse fechado o acesso pedonal os carros andariam por todo o lado, à velocidade que entendessem e estacionados quase à porta de casa ... perceberam o género? 

Civismo, nulo. Consideração pela colectividade, nula. Mas só gente porreira! Que existe, claro. Não obstante, há muitas reais bestas que partilham o mesmo espaço com um grande numero de pessoas. E, indicador neste micro-cosmo, de que raros são os que pensam "gostava que me fizessem isto?"

Pense nisso da próxima vez que estacionar em 2ª ou 3ª fila para ir ao supermercado ou à farmácia; ou que atirar lixo para o chão; que decidir mudar a mobilia na casa inteira às 10 da noite; que atraiçoar o/a seu/sua companheiro/a numa saida à noite, pelos copos e pelo "poder" de o fazer; ou que fugir aos impostos. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Do arrebatamento

O vestido caiu facilmente. Estava apenas preso pelas alças nos ombros magros e deslizou com vontade declarada pelo corpo, até ao chão, enquanto ela acendia uma única luz de presença.

Beijou-lhe o ventre. Sentiu-o a tremer. Antecipação. Expectativa. Sentia-lhe o calor sem sequer tocar. Era como uma fonte inesgotável de desejo prestes a desmoronar-se com um toque. Os dedos enfiaram-se entre a pele e a linha das cuecas de renda fazendo-as sair com mestria. Estava liberta, da máscara de tecidos, não das demais camadas de protecção. Tal não a impedia de arfar baixinho e com satisfação sob um rosto que perdia vergonha a cada caída da cabeça para trás.


Nua, encostada à parede fria, costas arqueadas, totalmente exposta viu-a a desmontar-se com cuidado ao primeiro beijo que se colou à boca como dali não houvera saída. Era intenso, forte, penetrante o modo como ela o arrastava para si com a língua e uma perna em torno da cintura.


Todo aquele momento era primário, selvagem, sem travões ainda que, e…

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…

Das razões

Quero-te pela desarrumação incompreensível que somos. Quero-te pela forma como me procuras à noite na cama, ainda a dormir, de modo instintivo, apenas para te recostares do mundo e amaciares no meu calor. Quero-te (tanto) quando sais do mar, feliz e salgado, qual criança livre agarrado à prancha como se fosse o teu bem mais precioso, a tua melhor amiga, a porta para o teu refúgio. Quero-te pelos beijos inesperados, lentos, que invadem qual descarga eléctrica, e afirmam sem hesitações desejo e amor. Quero-te pela forma como te afundas num livro e tudo à volta entra em pause-still e, mesmo assim, de repente tocas-me no joelho, no cabelo, dás-me a mão. Quero-te porque sei que acreditas em mim e não me questionas, crês que posso mudar o mundo. Quero-te pela tesão, confiança, cumplicidade e pelas saudades que temos, ainda, sempre, um do outro. Quero-te por te rires quando começo a cantar músicas que gosto e ouço a tocar, esteja onde esteja. Quero-te por dançarmos na rua se preciso entre ga…