Avançar para o conteúdo principal

Do Como é



É como um mergulho que nos sai bem e quando vimos a superfície ficamos a boiar, dolentes, com o sol a queimar o rosto que pica do sal, a mente em pause-still. Solidão e mar. Êxtase. 

É como um livro que começamos a folhear de mansinho com curiosidade e já não conseguimos largar, torna-se compulsivo virar mais uma e outra página, as palavras bailam sob os nossos olhos sôfregos. Puro deleite perder-mo-nos. 

É como deitar numa cama feita de fresco, lençóis alvos e macios, a reclamarem a queda do corpo cansado das guerrilhas diárias, o abandonar-se aquele aconchego e o suave baixar da guarda. 

É como uma noite de pura exaustão a dançar ao ritmo das músicas que fazem o coração acelerar, em ritmo de total liberdade, cabelo em desalinho, suor a escorrer pela espinha e explosão de energia, descarga de raiva. 

É como gritar pelo Benfica no meio da multidão que enche de encarnado o estádio, em dor e alegria que arrepia. 

É como o por de sol num dia de primavera sob Lisboa que se agita com o frenesim de Junho, o laranja que corta o azul deste céu com volúpia em pinceladas de um amarelo quente e um tom terra que nos lembra que existimos. 

Assim é gostar de ti. Assim é almejar pelo teu toque. Assim é o estremecer do teu beijo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Do acosso

Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência. O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas. 
A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado.
E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade. 
A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.

Das pequenas coisas

Talvez sejam as pequenas coisas. Como uma música que se ouve por acaso e se torna uma descoberta que nos marca um trânsito. Como um gelado fora de horas e com o sabor simplesmente certo de caramelo tal qual na nossa infância. Como aquele instante rápido entre fazer-nos à onda e o mar que nos toma por completo, nos restitui a energia e nos devolve ao mundo.
Terão que ser as pequenas coisas. A partir delas, tudo se enreda e o equilibro pesa para o complicado. Sinuosos os caminhos para que nos encontremos. Doloroso o andamento que faz que nos afastemos mais do que estejamos próximos mesmo quando tudo aponta para que haja uma cumplicidade e uma ligação súbita mas forte e consistente.
O toque é denunciador. Desmantela as forças e faz sucumbir com tamanho ardor. O beijo que transporta silêncio, paz, meta. O abraço que acolhe uma gargalhada e o estranho sentido de que tudo está bem.
São estas pequenas coisas. Que são fáceis e leves e perenes. Tão frágeis. Acabam tão depressa. Nada há-de ser …

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…