Avançar para o conteúdo principal

Voz

Exilada em casa, onde se confinara pelas circunstâncias da vida, Joana habituara-se a trocar os hábitos. Dormia durante o dia e depois do jantar, frugal, torrada com chá, lia e navegava na Internet.

À excepção da equipa de enfermagem, que a visitava uma vez por mês, ou da vizinha que aparecia quando estava por Lisboa, Joana não tinha contactos com o mundo. Usava o computador para saber o que se ia passando, falava com alguns amigos a viver noutras cidades e com um ou outro familiar distante, espalhado pelo mundo.

Consumia livros com a calma de quem tinha a vida pela frente, por viver, mas sempre igual e solitária, por sua opção. Tudo era saboreado num ritmo pacifico, de quem se acomodara aquele quadro. 

A sua maior alegria era ouvir um programa de rádio que passava de madrugada, apresentado por uma jornalista loura, que já fizera capas de revista, bonita e elegante. Desde que começara a ser conhecida, aquela Voz da rádio sempre fora uma promessa de sucesso mas o mais que conseguira fora ser conhecida por ter namorado um jogador de futebol, que se veio a descobrir ser casado (e não com ela), escrever umas crónicas para uma revista moderna, que não durou mais do que 4 numeros, e ter aquelas 3 horas de emissão, que lidava com total autonomia. 

Era uma eterna jovem, mas já passava dos 30 e estava presa aos solitários e tristes que a escutavam com admiração e lágrimas. Dava-lhes atenção, conselhos, partilhava histórias de vida, recomendava médicos e dietas. Escolhia as musicas certas para passar a mensagem de apoio e força. Dizia com sinceridade aquilo que muitos precisavam para mudar de vida. Também ela começou a usar o seu espaço radiofónico para desabafar as suas mágoas, alguns dias menos felizes e a incapacidade para ir mais além. A Voz era tudo para o pequeno universo dos seus ouvintes que nela confiavam sem a ver. Porém, eles não chegavam para aplacar a frustração e a solidão que ela própria sofria.

Numa noite particularmente quente mas muito chuvosa,Joana jantou como de costume, terminou Os Anões de Harold Pinter e, sentindo-se animada, preparou um copo de vinho do Porto para dar inicio ao programa de rádio. No entanto, passaram as 4 horas da manhã, aproximavam-se quase das 5 horas, e mantinha-se musica clássica "enlatada", aqui e ali, com pequenos intervalos para anúncios a produtos para a pele ou para a cozinha.

Joana ligou para a estação e um segurança ensonado, a fazer de recepcionista, explicou que não sabia o que se passava, que estava a atender chamadas daquelas constantemente desde que a Voz não entrara no ar. 

Ansiosa, a ressacar pela falta da "amiga" que imaginava, sempre sorridente e segura, com a palavra certa para cada problema, Joana teve que esperar pelas noticias das 7 para ter conhecimento de que a Voz, a caminho do trabalho, parara o carro na ponte e atirara-se ao rio. O corpo fora encontrado, já sem vida. Não deixara cartas, nem mensagens. 

Nos dias subsequentes, o suicídio da Voz tornou-se história mediática. Apareceram os pais, em choque, mas que admitiam a sensação de fracasso de que a filha padecia. Antigos namorados falavam da sua beleza e inteligência mas de alguma instabilidade. Os amigos teciam-lhe encómios, ainda que achassem que era uma pessoa que na verdade não se conhecia, na totalidade.

Joana assimilou a informação de modo tranquilo. Abalada por mais um abandono, voltou a dormir de noite e passou a usar os dias para as suas leituras. E manteve as suas rotinas plácidas. Todos os meses mandava entregar, no dia em que a Voz se matara, um ramo singelo de rosas amarelas, no cemitério onde, aquela que fora uma espécie de companheira de infortúnio, estava enterrada. 

Não deixava de ser uma maldade da Voz  não ter sabido valorizar o bem que lhe queria aqueles que a seguiam, diariamente. Mesmo assim, aceitava que cada um reagia à insustentabilidade da sua existência da forma como conseguia. 

Com esse tema arrumado na sua cabeça, recomeçou a ler o Estrangeiro, de Albert Camus.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Dos maldiitos

via boudoir photography

Agora acordo com mensagens que iluminam o telemóvel e em que dás conta de como pensas em mim antes de dormir. E que o queres partilhar comigo porque agora sentes saudades minhas. Agora recebo telefonemas sem hora nem expectativa e a voz é meiga e quente. Não ouço nada do que dizes, as palavras apenas são ditas mas há muito que já não têm peso ou impacto.
Antes foi a indecisão. O jogo dos que não se comprometem, que querem atalhos facilitados para um espaço confortável de repouso, salvação emocional momentânea, ilusão de pertença. Egoísta forma de ser que suga o querer dos outros para se sustentar, para sentir uma rede rápida de carinho e abraço mas que reclama para si a indisponibilidade de reciprocidade. Para quê? Se vos é dado grátis um sentimento para que serve o esforço de lutar por ele, qual o propósito de envolvimento, de estar, dar a mão, partilhar silêncios e perder a possibilidade de ter mais e mais, melhor, diferente, sempre mais, outras.
Era assim, ante…

Das pequenas coisas

Talvez sejam as pequenas coisas. Como uma música que se ouve por acaso e se torna uma descoberta que nos marca um trânsito. Como um gelado fora de horas e com o sabor simplesmente certo de caramelo tal qual na nossa infância. Como aquele instante rápido entre fazer-nos à onda e o mar que nos toma por completo, nos restitui a energia e nos devolve ao mundo.
Terão que ser as pequenas coisas. A partir delas, tudo se enreda e o equilibro pesa para o complicado. Sinuosos os caminhos para que nos encontremos. Doloroso o andamento que faz que nos afastemos mais do que estejamos próximos mesmo quando tudo aponta para que haja uma cumplicidade e uma ligação súbita mas forte e consistente.
O toque é denunciador. Desmantela as forças e faz sucumbir com tamanho ardor. O beijo que transporta silêncio, paz, meta. O abraço que acolhe uma gargalhada e o estranho sentido de que tudo está bem.
São estas pequenas coisas. Que são fáceis e leves e perenes. Tão frágeis. Acabam tão depressa. Nada há-de ser …

Do arrebatamento

O vestido caiu facilmente. Estava apenas preso pelas alças nos ombros magros e deslizou com vontade declarada pelo corpo, até ao chão, enquanto ela acendia uma única luz de presença.

Beijou-lhe o ventre. Sentiu-o a tremer. Antecipação. Expectativa. Sentia-lhe o calor sem sequer tocar. Era como uma fonte inesgotável de desejo prestes a desmoronar-se com um toque. Os dedos enfiaram-se entre a pele e a linha das cuecas de renda fazendo-as sair com mestria. Estava liberta, da máscara de tecidos, não das demais camadas de protecção. Tal não a impedia de arfar baixinho e com satisfação sob um rosto que perdia vergonha a cada caída da cabeça para trás.


Nua, encostada à parede fria, costas arqueadas, totalmente exposta viu-a a desmontar-se com cuidado ao primeiro beijo que se colou à boca como dali não houvera saída. Era intenso, forte, penetrante o modo como ela o arrastava para si com a língua e uma perna em torno da cintura.


Todo aquele momento era primário, selvagem, sem travões ainda que, e…