Da noite fizemos um gemido. Contido, tímido, ofegante, arrebatado, violento. Do calor que invadia a casa, fizemos castigo, energia para os corpos que deslizavam lentamente. Dos meus cabelos, fizeste fios que apenas te tocavam, enredados em dedos ágeis, mãos sapientes que não paravam, tão leves e sôfregas, em simultâneo, que ora entorpeciam ora incendiavam. Do teu sorriso de sacana sem lei, fiz a minha almofada, o meu assumido pecado, a minha impossível penitência, sem perdão concebível em cada cedência. Da musica que se ouvia fizemos o embalo suficiente para que fosse dolente, mas cru; apaziguador ainda que voraz; tranquilo e explosivo. De nós, somente, fizemos diferente.
Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência. O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas. A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado. E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade. A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.

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