É onde derramas os teus erros. É onde confessas as tuas ondas sinuosas. É onde admites que não és feliz. É onde abres a porta da insatisfação, de que procuras mais e diferente. É onde encostas a cabeça e pedes carinho, ilusão, afago, protecção. É onde assumes que o interior está danificado. É onde a conversa flui sem julgamentos, sem preconceitos, com um serpentear sedutor. É onde os olhares e o vinho e o silêncio são encantamento. É onde destila prazer. É onde apenas é temporário. A cada por de sol, termina.
Este calor que se abateu com uma força agressiva consome qualquer resistência. O suor clandestino esbate vergonha e combate qual sabre as dúvidas. A noite feita à medida de libertinos cancela as vozes interiores que alertam para mais uma queda dolorosa. A brisa quente atordoa, embriaga no contacto com a pele. O tempo pára, as palavras suspendem entre olhares que sustentam no ar tórrido toda a narrativa; qual pornografia sem mácula, mas plena de pecado. A lua cheia transborda e dá luz à ausência de sanidade que percorre no corpo. Tudo parece possível, uma corrente de liberdade atravessa-nos com o sabor do quente esmagado. E, mesmo assim, pulsa algo mais intenso. Mais derradeiro. Mais dominador. Mais perverso que o toque dos dedos. Mais agressivo que a temperatura irrespirável. O freio da impossibilidade. A intuição luta com o medo e na arena o medo mesmo que picado tem sempre muita força. O medo acossa-nos.

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